No ano passado, cumprindo a sua missão, a Academia Mineira de Letras lembrou o centenário de nascimento de importantes escritores. O aniversário de alguns livros fundamentais também ganhou espaço. Com a generosa participação dos professores da PUC Minas, foi possível organizar uma programação extensa. O público reagiu bem, comparecendo às palestras gratuitas com interesse e entusiasmo.

Audemaro Taranto Goulart fez bela e acurada síntese da obra de Murilo Rubião. Da sessão que focalizou Mário Palmerio, autor de ‘Chapadão do Bugre’ e ‘Vila dos Confins,’ participou expressiva caravana do Triângulo Mineiro, incluindo   Marcelo Palmerio, hoje reitor da universidade fundada pelo pai, na região. No dia dedicado a ‘Sagarana’, Celso Adolfo interpretou as canções que compôs sob inspiração do livro, antes da conferência de Alexandre Veloso de Abreu. Márcia Marques de Morais apresentou, de forma memorável, alguns aspectos cruciais para a compreensão de ‘Grande Sertão: Veredas’, tema a que se dedica há décadas. Com brilho, Ivete Walty produziu leitura inovadora de ‘Angústia’, de Graciliano Ramos, e Raquel Junqueira Guimarães resgatou a importância de Campos de Carvalho, autor de ‘A lua vem da Ásia’, nascido, como ela, em Uberaba. O ano acadêmico terminou com a exposição de Caio Boschi sobre os oitenta anos do clássico ‘Raízes do Brasil’, de Sérgio Buarque de Holanda.

A programação de 2017 será igualmente intensa. A construí-la tenho me dedicado com prazer, sobretudo porque é uma oportunidade para refletir a respeito da obra de autores que já não estão mais entre nós. Todos eles, com certeza, fazem muita falta. Drummond morreu há trinta anos, abrindo lacuna que até hoje não foi preenchida. No mesmo 1987, também se foi Primo Levi, o italiano que relatou ao mundo os horrores do holocausto nazista em livros memoráveis como ‘É isto um homem?’. Em parceria com o Instituto Histórico Israelita Mineiro, será ressaltada a contribuição dele para a literatura do século vinte. De origem judaica, como Levi – e hoje a escritora brasileira mais estudada nos Estados Unidos – Clarice Lispector partiu em setenta e sete, deixando larga produção de contos, crônicas e romances, entre eles jóias como ‘Perto do coração selvagem’ e ‘A hora da estrela’. Sua legião de leitores continua crescendo, seduzida pelo fascínio do seu verbo.

Os cem anos de Antônio Calado, Josué Montello e Celso Cunha  serão recordados por especialistas, bem como os noventa anos de Ariano Suassuna, falecido em julho de 2014. O criador de ‘Auto da Compadecida’ retratou a cultura popular de modo lírico e refinado, imortalizando-a. Os oitenta anos de Moacyr Scliar merecerão análise detida, assim como a obra de João Antônio, também nascido em 1937,  um ícone da literatura marginal hoje injustamente esquecido. Que sejam todos muito bem vindos à temporada de 2017!