Carlos escala, ansioso, as escadas que levam ao topo do tobogã instalado no Minas I. É só alegria. Do alto dos seus quatro anos e meio, não apresenta o mínimo traço de medo durante a descida. Minha função é esperá-lo com um abraço apertado, já na água, onde o seu corpinho chega, às gargalhadas, em questão de segundos. O ritual se repete, se repete, e se repete. O ponteiro do relógio faz a volta completa sem que meu filho exiba o menor sinal de enfado. Se decide mudar de brincadeira, sei que é grande a chance de visitar o pula pula do Espaço Kids, quando também joga totó (a seu modo) e, ousado, se arrisca no pingue-pongue. Atuo como gandula, resgatando, sempre longe, a bolinha que ele atira mais ou menos na minha direção, divertindo-se. Antes de deixar a área das piscinas, o pai, marinheiro de primeira viagem, encantado com o milagre da vida, lança um olhar de saudade para o prédio do restaurante do clube, onde tantas vezes almoçou, em domingos felizes, com o avô de Carlos, que em julho de 2016 completaria cem anos.

Papai nunca foi dado a esportes. Lembro-me de vê-lo apenas uma vez numa quadra de peteca, sem grande entusiasmo. Seu forte eram as caminhadas diárias pelo Parque Municipal ou pela Praça da Liberdade, a prática regular do yoga e uma alimentação razoavelmente saudável, regada a moderadas taças de vinho tinto – “ótimo para o coração” – e aromatizada pelas porções fixas de alho puro consumidas antes das refeições. A receita funcionou e ele teve vida longa, sempre lúcido. Mesmo sem aderir às quadras e aos campos, achava importante que meu irmão e eu nos exercitássemos. Um lema muito badalado em sua época, o Mens sana in corpore sano, ampliou ainda mais a presença do Minas na educação de seus filhos. Rodrigo fez judô, ginástica olímpica, futebol de salão. Sem muito jeito, freqüentei aulas de basquete às sete horas da manhã, morrendo de sono…

Carlos não chegou a conhecer papai. Na minha imaginação, no entanto, nós três passamos, juntos, uma bela manhã de sábado no Minas, a casa que acolhe, hospitaleira, a terceira geração da minha família. Confortavelmente instalado em uma mesa próxima, talvez petiscando e tomando uma cervejinha, o vovô Expedito nos observa com carinho, o coração leve. Ensino meu filho a se virar na água. É mandamento paterno: todo mundo tem que aprender a nadar.

Não sei se Carlos, um dia, se dedicará à natação. Para ele, o que importa agora, de verdade, é medir o seu crescimento do mesmo modo que eu fazia, quando criança: com as pontas dos pés, percorre a piscina, curioso e atrevido, para descobrir até onde consegue chegar sem submergir. Vibra a cada centímetro conquistado. O Minas testemunha os seus progressos, assim como fez comigo, assim como fará com Gabriela, que chega em setembro, com a primavera.