Quando o assunto era casamento, Leila Márcia costumava dizer que o seu duraria, na melhor das hipóteses, cinco anos, tempo máximo em que se engajava em algum compromisso. Quando finalmente decidiu que chegara a hora de viver a experiência, iniciou, determinada, as buscas necessárias à execução de seu projeto. Levou pouco tempo para escolher Eustáquio André como marido. Um dos rapazes de seu círculo mais próximo de relacionamento, o jovem  tinha o perfil adequado aos seus propósitos. Cidadão do mundo, viajante inveterado, adepto do nomadismo, amante de novidades, ele tampouco suportaria manter um vínculo duradouro com a moça. Com ninguém. Por conta disso, aceitou, encantado, a proposta de Leila Márcia, formulada de modo claro e direto: ‘no limite, sessenta meses’. A cerimônia foi em uma praia do litoral baiano. As águas do mar forneceram o cenário perfeito para o amor líquido do casal. Com prazo de validade, a união começava forte, já que não precisaria defender-se das conhecidas ameaças à estabilidade conjugal.

Os quatro primeiros anos de convivência foram incríveis. Nunca uma mulher e um homem se divertiram tanto juntos. O sexo? Fantástico. As naturais chateações do cotidiano eram enfrentadas com disposição e bom humor. Mesmo algumas questões sérias, envolvendo dinheiro ou familiares de um ou de outro, eram conduzidas de modo tranqüilo e maduro.

O problema, porém, apareceu no meio do quinto e último ano de convivência, quando os dois perceberam que, por um descuido qualquer, haviam se deixado envolver por uma afeição mútua e persistente, cada vez mais sólida. Inicialmente surpresos, esperaram um pouco para ver se o afeto morria, de causas naturais. Preocupados, pensaram em traçar estratégias para fazê-lo desaparecer, ou, para, pelo menos, atenuá-lo. Nada do que tentavam, no entanto, produzia o resultado almejado. Aflitos, notaram que o sentimento que insistia em uni-los era algo de que nunca haviam provado antes e que sequer tinham observado no relacionamento dos pais ou dos amigos. Que nome teria?

O susto veio quando se pegaram folheando revistas especializadas em bebês e na criação de filhos. Entreolharam-se, apreensivos. Em respeito ao combinado, ainda tiveram forças para arquitetar os últimos contra-ataques: conseguiram dormir duas noites em quartos separados. Na terceira, todo o esforço caiu por terra, e um procurou o outro, desesperado por abraços e beijos. Também tentaram trocar ofensas e acusações, o que acabou em riso. Sem mais esperanças, rendidos à realidade, acertaram a prorrogação do contrato por mais um ano.

Os gêmeos vieram algum tempo depois.  Leila Márcia e Eustáquio André optaram por assinar mais um termo aditivo. Hoje, uma pilha deles ocupa a gaveta de curiosidades do escritório da casa. As bodas de prata foram celebradas em uma praia do litoral baiano, as águas do mar ao fundo. O cenário perfeito.