No ano passado, tive a alegria de fazer uma conferência sobre os sessenta anos do livro ‘O encontro marcado’, de Fernando Sabino, na Academia Mineira de Letras. Não houve nada melhor que estudar um dos livros mais reeditados desde o seu lançamento. A história de Eduardo Marciano permaneceu. Traduzida para vários idiomas, consagrou-se como representativa de toda uma geração, e elevou a novo patamar a carreira literária do seu autor, nascido em Belo Horizonte, no dia das crianças, em 1923. Data perfeita para abrir a biografia de um dos escritores que mais celebrou a infância e os seus encantos, a ponto de redigir o seguinte epitáfio para a sua lápide: ‘Aqui jaz Fernando Sabino/Nasceu homem, morreu menino’.

Ex-aluno do Grupo Escolar Afonso Pena e do Ginásio Mineiro, nadador do Minas Tênis Clube, Sabino foi mestre da crônica e do conto, mas também escreveu novelas e romances, como o citado acima, e ‘O Grande Mentecapto’, em que descreve a trajetória de um personagem inesquecível, Geraldo Viramundo, imortalizado no cinema por Diogo Vilela. Único caso no planeta de alguém que ganha um cartório e o devolve ao governo, o escritor produziu extensa obra, vendeu milhares de livros, cultivou uma legião de leitores fieis, e, mais importante: prestigiou o prazer de ler, devolveu o viço à palavra, enfatizando a sua capacidade de comunicar. ‘É difícil escrever fácil’, sempre repetia, sobre o seu processo criativo. Claro, direto, e, sobretudo, bem humorado, o texto de Fernando Sabino até hoje é adotado por muitos professores para despertar ou fortalecer em seus alunos a afeição pela leitura. ‘O menino no espelho’,  narrativa sobre as memórias da infância vivida em Belo Horizonte, é mais um de seus clássicos, até hoje firme e forte nas prateleiras das livrarias, mesmo tendo sido publicado, pela primeira vez, em 1982.

Relendo, agora, a ótima biografia de Sabino escrita pelo jornalista Arnaldo Bloch (Editora Relume Dumará, 156 páginas), e a sua narrativa autobiográfica, ‘O Tabuleiro de Damas – Trajetória do menino ao homem feito’ (Editora Record, 220 páginas), entrei em 2017 com as energias renovadas, inspirado por suas idéias e pelo testemunho de sua vida. Diferente do intelectual distante e inacessível, afastado das pessoas e isolado em seu mundo, Fernando Sabino viveu intensamente. Casou três vezes, teve sete filhos, rodou o mundo, morou em Nova Iorque e em Londres, dirigiu documentários, foi dono de editora e baterista de jazz. Reconheceu o poder da amizade, sabendo manter-se sempre perto dos amigos. Lá está Sabino, em estátua de bronze, na porta da Biblioteca Pública, na Praça da Liberdade, com seus três companheiros mais queridos: Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino.

Se vale alguma coisa indicar boas companhias para começar o ano novo, Fernando Sabino, sem dúvida, é uma delas. Leve e inteligente, agradável e profundo, divertidíssimo, é amigo para todas as horas.