Afrânio Celso mandou trazer a sela e os arreios. Protocolar, orientou o candidato a ficar de quatro, para mais uma importante etapa do teste de seleção. Jofre Heleno dos Santos fez o melhor que pôde. Lembrando-se das orientações contidas nas apostilas, dobrou os joelhos com técnica, até tocar o chão da sala; levou as mãos à frente em um movimento rápido, para não deixar o examinador impaciente; ergueu as costas até a altura adequada, arqueando levemente a coluna, no ângulo sugerido pelos amigos mais experientes, todos bem empregados. A montaria encaixou-se perfeitamente, para alivio do rapaz.

A focinheira apareceu num estojo com a logo da empresa. Afrânio Celso pediu que o trainee a instalasse na boca de Jofre do modo indicado no ‘Manual de prospecção de talentos’. Previdente, o aspirante respirou fundo, armazenando um pouco de ar para suportar os minutos seguintes. Jonathan não gastou mais que dois ou três para cumprir a ordem. O candidato suportou bem o equipamento. Nem mesmo as esporas ou o chicote foram capazes de incomodá-lo, quando acionados por Sérgio Junior, o piloto encarregado de medir a sua resistência.

Convidado polidamente a manifestar-se sobre o circuito realizado, Jofre Heleno dos Santos elogiou a qualidade do material utilizado na prova e a gentileza do jockey, chegando mesmo a demonstrar um certo orgulho por haver sido examinado por ele. Afrânio Celso ouviu a resposta com atenção, fazendo algumas anotações em seu lap top. Rigoroso no cumprimento de horários, deu logo início à fase seguinte.

Jonathan trouxe a bandeja de inox com o prato já coberto pelo cloche, colocando-a solenemente sobre a mesa central, montada à francesa, farta em taças e talheres. Aquele odor fétido espalhou-se rapidamente pela sala. Generoso, Afrânio Celso ainda sugeriu que Jofre Heleno dos Santos tomasse um pouco da água oferecida pelo trainee. Animado pela deferência, o rapaz tomou mais da metade do copo, detalhe devidamente registrado no computador portátil. Sem perder tempo, o examinador iniciou mais uma das avaliações previstas para o dia.

Abrindo o ‘Manual de prospecção de talentos’ na página trinta e seis, o chefe de Jonathan começou a leitura da questão, alternando seu olhar entre o texto e a fisionomia de Jofre Heleno dos Santos, providência fundamental para apurar suas reações e, em conseqüência, a sua pontuação. O aspirante apresentou desempenho bastante satisfatório, executando todas as instruções com empenho e foco. Quando Jonathan retirou o cloche do prato, no entanto,  o candidato quase pôs tudo a perder, demorando um pouco a controlar a ânsia de vômito, disparada assim que encarou o produto a ser ingerido.

Depois da surpresa, porém, Jofre conseguiu dar a volta por cima, comendo todo o bolo sem nausear-se, e o melhor: seguindo rigorosamente as regras da etiqueta. Foi contratado.