CADEIRA Nº 71 – Padre Viegas de Menezes, precursor da imprensa mineira

Boa dia a todos. Inicialmente, gostaria de saudar a mesa diretora dos trabalhos dessa sessão.

Também dirijo uma palavra especial aos três integrantes da Comissão de Recepção, que me acompanharam da sala da diretoria até este plenário: o ministro Adhemar Ferreira Maciel, do Superior Tribunal de Justiça, presidente da Academia Mineira de Letras Jurídicas; Aristóteles Atheniense, ex- vice presidente do Conselho Federal da OAB e ex-presidente da seção mineira da Ordem dos Advogados do Brasil; e José Anchieta da Silva, ex- presidente do Instituto dos Advogados de Minas Gerais e presidente da Comissão organizadora das comemorações do Centenário do Instituto, que será celebrado em 2015. A Anchieta devo, ainda, especial reverência, já que, por suas mãos, ingressei no Instituto dos Advogados do Brasil, entidade fundada no Rio de Janeiro em 1843 e responsável por liderar o processo de fundação da OAB.

Dedico, ainda, uma palavra de amizade a Luiz Ricardo Gomes Aranha, presidente do Instituto dos Advogados de Minas Gerais, de quem recebi a medalha João Pinheiro.

Assim como o Instituto Histórico, seu irmão mais velho, o Instituto dos Advogados segue firme, vivo e atuante, em seus noventa e oito anos de idade.

No dia em que passo a integrar os quadros do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, convido todos os presentes a embarcarem comigo em rápida viagem pelo tempo, a fim de que possamos, juntos, compreender o contexto em que a presente solenidade se insere. A reunião que ora promovemos, nessa acolhedora casa, só é possível por resultar de longa cadeia de acontecimentos.

Transportemo-nos, pois, a 1838. Passados apenas dezesseis anos da proclamação da Independência, o Brasil vive o período regencial. Muitas revoltas contra o poder central agitam diferentes regiões de seu território. Em esforço para constituir a idéia de Nação, naquele ano são instalados dois importantes centros da Memória Nacional: o Arquivo Público, em 2 de janeiro, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB, no dia 21 de outubro, que nasce como um empreendimento de caráter privado, patrocinado pela Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.

Por sua vez, a fundação do Instituto no Brasil é consequência do que vinha ocorrendo, no século dezenove, em diversas partes do continente europeu.

Sobre as instituições que influenciaram o modelo seguido pelo Instituto Brasileiro, ao tempo de sua fundação, o professor Américo Jacobina Lacombe, que o presidiu entre 1985 e 1991, escreve que duas, em especial, se destacaram: a Academia de Ciências de Lisboa e o Instituto Histórico de Paris, fundado em 1833 e instalado em 23 de março de 1834, com o compromisso, segundo seus membros, de ser uma instituição “sans partie, école ou système” (sem partido, escola ou sistema).

Na primeira sessão do instituto parisiense, o orador oficial, Eugene de Monglave, enumerou as academias existentes à época e que tinham por finalidade universalizar o estudo da História. Foram elas, a partir de 1700, a Academia de Berlim, a Academia Real de História, fundada em Portugal por d. João V, em 1720; a academia fundada em Madrid, por Filipe V, em 1738; a de Estocolmo, Suécia, fundada em 1739; a Sociedade Arqueológica e Histórica de Londres, fundada em 1751; a academia de Carlos Teodoro, príncipe da Baviera, em 1755; a de Nápoles, de 1775.

Voltando ao Brasil, evoco as palavras do historiador Francisco Iglesias, um dos mais importantes intelectuais que Minas gerou para o Brasil. Para Iglesias, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi o principal centro de pesquisa histórica no país até a terceira década do século vinte.

Prova disso é a importante criação, em 12 de outubro de 1915, da Academia de Altos Estudos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, instalada em 25 de março de 1916. Três anos depois, em 1919, ela se transformaria em Faculdade de Filosofia e Letras. Em 1922, formava sua primeira turma. Foi a primeira tentativa, no Brasil, de elevar o nível do ensino da História a grau de formação superior.

Hoje, segundo dados da historiadora Lucia Maria Paschoal Guimarães, em sua tese de doutorado sobre o IHGB, defendida na Universidade de São Paulo, em 1995, a biblioteca do Instituto conta com 500 mil volumes; a hemeroteca agrega cerca de 600 títulos de periódicos nacionais e estrangeiros; a sua mapoteca reúne mais de mil e duzentas representações de todo o mundo, e o seu arquivo, ainda na avaliação da referida historiadora, constitui um dos mais conceituados centros de documentação da America Latina.

Na recém nascida Belo Horizonte, e apenas dez anos depois de sua fundação, surge, em 1907, sessenta e nove anos depois da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

Entre seus sócios fundadores estiveram, entre outros, Augusto de Lima, Estêvão Pinto, Mendes Pimentel, Nelson de Sena e Júlio César Pinto Coelho. O presidente do Estado de Minas Gerais, João Pinheiro, foi escolhido por aclamação para presidir as sessões. A ata de fundação é de 18 de julho de 1907. A instalação solene se deu em 15 de agosto de 1907, quando Diogo de Vasconcelos proferiu o discurso oficial.

Desde que surgiu, há quase cento e seis anos, o Instituto busca ser fiel à sua vocação e ao seu destino: fomentar o estudo, a pesquisa e a divulgação nos campos da história, da geografia, da antropologia e da sociologia, entre outras áreas do conhecimento.

Ao longo das décadas, o Instituto reuniu nomes expressivos da cultura mineira em torno dos seus ideais. Formou biblioteca de porte, hoje com mais de vinte mil livros. Promoveu seminários e congressos de relevo. Consolidou sua revista como publicação de referência no campo de sua atuação. Organizou rede de convivência qualificada no âmbito da sociedade mineira de pesquisadores.

Tem seguido o que falou o professor Américo Jacobina Lacombe a respeito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: o Instituto é o espaço para a aproximação entre mentalidades diferentes. Afinal, não se constrói o conhecimento profundo e refinado sem a contribuição de pontos de vista distintos, muitas vezes antagônicos.

Desse modo, agregando integrantes das mais variadas origens intelectuais e visões de mundo, o Instituto foi capaz de superar todos os obstáculos do caminho, posicionando-se, hoje, como a entidade cultural mais antiga de Minas Gerais ainda em plena e vigorosa atividade, fruto, naturalmente, do talento e do trabalho dos seus integrantes. Hoje, destaco a atuação de dois deles.

O primeiro é Marco Aurélio Baggio, que me apresentou a esta Casa. O segundo é o professor Ivo Porto de Menezes, atualmente sócio emérito do Instituto e meu antecessor na cadeira de numero 71.

Médico, psiquiatra e psicanalista, Marco Aurélio Baggio destacou-se pela elaboração de conceituações e de práticas psicoterapêuticas modernas, inusitadas e eficazes, derivadas de seu amplo estudo de dezenas de autores e de escolas psicoterápicas, entrosadas com sua larga experiência clínica, o que originou uma postura pessoal avançada como psicoterapeuta.

Membro da Academia Mineira de Medicina, Marco Aurélio Baggio também integra a Academia Brasileira de Médicos Escritores e o Instituto Mineiro de História da Medicina.

 

Além dos textos no campo da psicanalise e da psiquiatria, que publica regularmente em periódicos especializados, no Brasil e no exterior, Marco Aurélio Baggio é autor de vários estudos no campo da literatura, especialmente sobre as obras de Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Raduan Nassar, Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues e Gonçalves Dias.

Dedicado a intensa atividade intelectual, Marco Aurélio Baggio tem seu interesse concentrado nas expressivas contribuições encontradas na cultura ocidental a partir de seus filósofos, seus pensadores, poetas, cientistas e, sobretudo, nos ensinamentos encontrados em autores  da chamada literatura humanística. É autor de trinta e sete livros.

A Marco Aurélio Baggio, com admiração e respeito, o meu muito obrigado por me acolher nessa casa.

O meu antecessor na cadeira de número 71 é o professor Ivo Porto de Menezes. Formado Engenheiro Arquiteto pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1954, e em urbanismo pela mesma escola, em 1957, Ivo Porto de Menezes trabalhou na diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, dirigindo a restauração de importantes monumentos, entre os quais o Museu da Inconfidência.

Pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, também foi assessor para assuntos arquitetônicos e urbanísticos da Prefeitura de Ouro Preto e Diretor do Arquivo Público Mineiro, entre 1974 e 1975. Foi, ainda, integrante do Conselho Estadual da Cultura.

Livre docente em Construção Civil, Arquitetura, Saneamento e Urbanismo pela Escola de Minas e Metalurgia da Universidade do Brasil, é Doutor pela Escola de Minas e Metalurgia da Universidade do Brasil e Professor Catedrático de Construção Civil, Arquitetura, Saneamento e Urbanismo da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto.

Na UFMG, foi professor adjunto de Arquitetura Brasileira. Na Universidade Federal de Ouro Preto, foi professor titular de Construção de Edifícios na Escola de Minas e Metalurgia.

Uma breve análise de sua vasta produção acadêmica confirma sua grande afinidade com os temas ligados, sobretudo, à Minas colonial, sua arquitetura e sua arte, assuntos essenciais para quem deseja compreender as raízes culturais do povo mineiro.

A cadeira setenta e um, pois, antes ocupada por um arquiteto, agora será ocupada por um jornalista, o que não é tão despropositado assim.

Afinal, o patrono da cadeira 71 é o padre José Joaquim Viegas de Menezes, conhecido como precursor da Imprensa em Minas Gerais. Como ensina o professor Jairo Faria Mendes, em seus textos sobre o padre – fontes principais da presente pesquisa – Viegas de Menezes nasceu em Ouro Preto, em 1778, e foi abandonado na casa de Ana Teixeira Menezes, que o criou e reconheceu como filho. Na cidade de Mariana, Viegas estudou humanidades. Em 1797, foi para Portugal, a fim de dar continuidade aos seus estudos, sendo ordenado padre cerca de três anos depois.

Aí, teve uma convivência fraterna com frei Veloso, que dirigia a Oficina do Arco do Cego. Frei Veloso é uma das principais personalidades da história da imprensa luso-brasileira, e era muito amigo do padre Viegas. Com o frei, Viegas aprendeu muito sobre a arte da impressão, e fez a tradução, do francês para o português, do importante “Tratado da gravura a água forte, e a buril, em maneira negra, com o modo de construir as prensas modernas, e de imprimir em talho doce”, que foi impresso no Arco do Cego.

Em 1802, Viegas retornou a Ouro Preto, passando a praticar a arte da impressão.

Em 1807, em plena vigência da censura régia, utilizando uma técnica chamada calcografia, que se serve de chapas de metal fixa para compor o texto, o padre Viegas foi capaz de viabilizar a publicação de um poema de quatorze páginas. Segundo registros da história, para implementar tal empreendimento, Viegas investiu três meses de trabalho duro, aplainando, polindo e abrindo onze chapas de diversos tamanhos. Foi a primeira impressão oficial nas Minas Gerais.

Em 1820, também em Ouro Preto, Viegas traduziu trecho do dicionário de ‘Sciencias e Artes’, originalmente publicado em francês, referente à arte da tipografia. Na companhia de um amigo, o português Manoel José Barbosa, resolveu construir uma tipografia, que ficou pronta em 1821, recebendo autorização para funcionamento somente em 20 de abril de 1822. Segundo os historiadores, nessa tipografia seriam impressos os primeiros jornais mineiros, como o Compilador Mineiro, fundado em 1823, a Abelha do Itaculumy, de 1824, e o Universal, de 1825. Por essa razão, cabe ao Padre Viegas de Menezes a alcunha de precursor da imprensa mineira.

Viegas de Menezes está enterrado na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, e dá nome a um distrito de Mariana, município vizinho.

O seu pioneirismo é lição que não esmorece e nos estimula a arriscar, ousar, desbravar novos caminhos, explorar possibilidades.

Minha tarefa, nessa Casa, é a de gerar contribuição que dê sentido  ao ingresso do profissional da imprensa nos quadros de um Instituto Histórico e Geográfico. Trago, da prática jornalística, a compreensão da importância da reflexão sobre a história para viver o dia a dia.

Para tanto, adquirir e exercitar o raciocínio histórico é essencial. Esquecer, por outro lado, é perigoso. Pode gerar conseqüências terríveis. A mais comum é a repetição de erros. Outra grave consequência é a absolvição de pecados que não deveriam merecer perdão. O momento presente é fruto do que foi feito ou desfeito no passado, assim como o futuro é resultado do que está sendo construído agora.

A prática do jornalismo cumpre várias funções no meio social em que se realiza. Como uma das mais importantes, está a de proteger a comunidade contra alguns efeitos perversos da impiedosa passagem do tempo, entre os quais o mais lesivo é o natural esquecimento de processos, fatos, situações e personagens que marcaram o seu destino e influenciaram sua marcha sobre a Terra. Trazer de volta à tona acontecimentos registrados em épocas pretéritas é parte da responsabilidade ética da imprensa. Interpretá-los e analisá-los com argúcia é  cláusula fundamental do pacto tácito celebrado entre a imprensa e o seu público, titular do direito à informação de qualidade.

Em sentido contrário, é possível alegar que a abordagem da História cabe primordialmente à instituição escolar ou até à família. É inegável, no entanto, que o destaque alcançado pelos meios de comunicação na sociedade contemporânea confere a eles uma tarefa que não tem como se limitar à mera divulgação dos eventos cotidianos. O jornalista, seguramente, não é professor, mas é capaz de ativar a ampla circulação de matérias de caráter histórico e portadoras de indisfarçável impacto educativo, o que requer extrema honestidade intelectual e excelência formal.

O jornalista, no entanto, não pode ser confundido com o historiador. Em tal posição, ele estaria obrigado a conferir à sua produção um rigor científico que as condições materiais de que desfruta para exercer o seu trabalho não permitem. Infelizmente, por variadas razões, a atividade jornalística é desempenhada, amiúde, de modo precário, ensejando a edição de textos pródigos em falhas ou omissões.

Referida circunstância, mais comum no chamado jornalismo diário, não pode, porém, impedir a imprensa de levar à consideração de seu público as referências encontradas no exame da História. O recurso ao campo da História é estratégia que todo jornalista comprometido com o significado da notícia e o seu impacto deveria executar. Sem ele, o seu trabalho fica pobre, perde fôlego e corre o risco da irrelevância ou da incompreensão.

É pouco razoável imaginar que o público capte satisfatoriamente qualquer informação veiculada hoje em dia sem que ela esteja apresentada em seu contexto devido, sobretudo em sua dimensão histórica. A maioria dos fatos pode ser rastreada em seus antecedentes e em suas causas. Sem essa providência, não há como entendê-los e analisá-los a contento.

Sem conectá-los às suas fontes, às suas origens, à sua “história”, restará apenas a possibilidade de contemplar os fatos com a fisionomia assustada de quem não consegue unir as peças de um quebra-cabeças. É nesse momento que, para uns, o mundo muito provavelmente será lido como uma fatalidade, uma ironia, um ato de cinismo ou, simplesmente, como um grande assombro, como algo sem sentido, uma explosão absurda e inexplicável de fragmentos que não compõem qualquer narrativa inteligível. É nesse momento que o mundo poderá surgir como um enigma, um mistério, uma mensagem cifrada, um texto absolutamente ilegível.

Para combater esse risco, é preciso utilizar todos os espaços disponíveis ao avanço do pensamento. E usufruir deles com intensidade, sem cerimônia.

O Instituto é um lugar apropriado para a reflexão e o debate. Seu ambiente de convivência agradável é ideal para que também as divergências e as críticas sobre os seus objetos de estudo sejam expressas com elegância, mas também com firmeza. Não é possível construir a história eliminando-se o conflito. A história é a expressão dos conflitos. A história é o registro e o resultado das disputas.

Essa é o discurso histórico em que acredito. Essa é a história em que acredito: plena, intensa, total, que inclua e problematize as versões de vencedores e vencidos, poderosos e oprimidos, fortes e fracos, ricos e pobres. Quero a história complexa, tensa, atravessada pelas alegrias, mas também pelas angustias, pelos sofrimentos e pelas dores típicas da existência humana sobre a Terra.

Como apaixonado pelo estudo e pela divulgação da História, não me cabe bajular, adular ou glorificar quem quer que seja. Não me cabe montar um panteão de heróis nem uma lista de vilões. Cabe a mim, isso sim, recorrer à História para dotar de um sentido maior o tempo em que vivo hoje e projetar um futuro que seja menos cruel, menos violento, menos consumista e mais solidário, mais fraterno, mais humano.

Esse é o sentido que confiro ao meu ingresso nesta Casa, hoje.

A todos os meus pares, aqui presentes, que me recebem com tanta generosidade, mais uma vez, o meu

Muito obrigado!