Boa noite. Cumprimento o distinto público, as autoridades, amigos e familiares,  a família de Milton Reis, os acadêmicos e os integrantes da mesa, agradecendo a presença de todos na pessoa da senhora Elizabeth Rennó, presidente da Academia Mineira de Letras, a AML, casa que me acolhe hoje com a generosidade típica dos lugares em que se cultiva a convivência fraterna em torno da literatura, da educação, das artes, da memória e, sobretudo, da palavra.

Luz sobre a escuridão, a palavra é vida: ela cria e transforma. Traço distintivo da espécie, fundamental para o seu êxito, é a palavra que viabiliza a organização social e o mundo da cultura. O verbo é o mais valioso tesouro colhido, até hoje, na aventura da existência humana sobre a Terra. A linguagem é o patrimônio maior que essa raça legará à posteridade. Complexa e simples, ela é o que permite a mulheres e homens a sobrevivência, a construção da memória e a projeção do futuro.

É a palavra que nomeia o desejo e alimenta o sonho. Animal que suspira, o homem quer habitar, como no mito, o paraíso perdido. Por isso, luta. Para isso, viaja. Nessa busca interminável, sua bússola é a palavra. É no encadeamento formado por letras e sons que mora a esperança humana. Sem o verbo, somos o nada, o nunca, o não, o vazio, a tristeza, a solidão e a dor. Sem a linguagem, somos bichos. Poder e compaixão, é a linguagem que abre a porta, estende a mão e mostra caminhos.

Uma das filhas mais talentosas da linguagem, a literatura não só abre a porta, estende a mão e mostra caminhos, produzindo sentidos. Tecelã das melhores narrativas, ela faz mais. Engenho e arte, a literatura conduz a universos paralelos, de dimensões, cores, odores e sabores surpreendentes. Ousada, propõe o delírio e o deleite, a surpresa e o espanto, embaralhando o vivido e o imaginado, provocando a perplexidade, a catarse, o deslumbramento. Sua contribuição para a cultura humana, por tudo isso, é incalculável.  Como seria o mundo sem Homero, Sófocles, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare e Cervantes? Como seria o Brasil sem Alencar, Machado, Graciliano,  Drummond, Guimarães Rosa, Cecília e Clarice? O mundo e o Brasil seriam certamente outros sem os seus escritores. Literatura constrói identidades, ambienta-se no tempo e no espaço, aborda a política, a economia, a ciência, a filosofia, a mitologia e a religião.

A história também não seria a mesma sem a literatura. Literatura é potência e profecia. É capacidade de arquitetar mundos e promover mudanças. A literatura pode ser perigosa, subversiva, revolucionária. Uma nação de leitores será, com certeza, o território de mulheres e homens mais sagazes e altivos, menos propensos ao servilismo, à ignorância, ao medo e ao engano. Não foi diferente o sonho dos doze jovens que fundaram essa casa, no Natal de 1909, em Juiz de Fora: a Academia Mineira de Letras existe para fomentar o amor pela língua, pela literatura e pela leitura; para dignificar o ofício dos escritores e para divulgar o prazer libertador de ler. Fieis a essa bela missão, ao longo de seus cento e sete anos de vida, muitos dos que a integraram souberam honrar os seus ideais e agir firmemente em seu favor, sob as bênçãos de patronos inspiradores.

O patrono da cadeira de numero oito, que hoje passo a ocupar, é João Baptista Martins, nascido em 1868. Ex-aluno do Colégio do Caraça, estudou Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, em São Paulo, quando se destacou pela vigorosa oratória abolicionista e republicana. Advogado no município mineiro de Santa Luzia do Carangola, logo foi nomeado promotor de Justiça daquela comarca. Eleito vereador geral e presidente da Câmara, assumiu, em 1898, a prefeitura da cidade. Um pouco depois, fundou, com seu amigo Belmiro Braga, o jornal “O Rebate”, em cujas páginas iniciou a contestação às práticas políticas de seus adversários, os coronéis que há tempos dominavam a região. Em 1899, desafiando o grupo majoritário, candidatou-se a deputado federal, sendo derrotado. Dessa experiência, resultou seu mais famoso livro, “A masorca”, hoje considerado um importante documento histórico sobre o coronelismo e os costumes políticos da República Velha. O livro ganhou dimensão nacional, ao denunciar como, naquele tempo, as oposições não tinham qualquer chance de êxito nas urnas. Após o pleito, Baptista Martins deixou Carangola, passando a residir em São João del Rey, onde, no jornal Resistente, publicou o ensaio Males e Remédios, em que reiterou sua crença nos princípios democráticos. Em Juiz de Fora, para onde se mudou em seguida, colaborou no jornal O Pharol, ao lado de Cesário Alvim e Azevedo Junior. É desse tempo a série de artigos que publicou no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em seção intitulada As Cartas de um montanhês, em que trata de vários aspectos da realidade nacional. Já morando em Belo Horizonte, tornou-se o primeiro titular da advocacia geral do estado, no governo de Francisco Salles. No exercício de tal função, atuou, entre tantas outras, na questão dos limites territoriais entre Minas Gerais e Rio de Janeiro. Doente, voltou a residir em Carangola, onde faleceu em 1906, aos trinta e sete anos de idade.

Já o fundador da cadeira de número oito foi o poeta Belmiro Braga. Nascido em 1872, na fazenda da Reserva, em Vargem Grande, hoje um município que leva o seu nome, na Zona da Mata mineira, publicou seu primeiro texto em 1884, no jornal O Pharol, de Juiz de Fora, aos doze anos de idade. Depois passou a assinar, no Correio de Minas, seção em versos intitulada Bimbalhadas, que mais tarde seria rebatizada como Repiques, sob pseudônimo de Sá Cristão. Em 1902, lançou seu primeiro livro, Montezinas, prefaciado por seu amigo João Baptista Martins. Aos trinta e sete anos, em 1909, integrou o grupo dos doze jovens que fundaram a Academia Mineira de Letras, em Juiz de Fora. Entre seus livros, figuram Cantos e Contos, Rosas, Contas do meu rosário, Tarde Florida, Redondilhas, Lírios e Rosas, e Sacrário- versos íntimos. Belmiro também publicou suas memórias, Dias idos e vividos, contos e crônicas, além de notas de viagem, como De Juiz de Fora a Lavras, e De Paris a Berlim. Marcou, ainda, presença na dramaturgia. É autor das peças Na Roça; Na cidade; O divorcio; Porto, Madeira e Collares; Que trindade!…, Medo de Mulher, Um juiz de fora em Juiz de Fora e O voto secreto. Foi um dos fundadores da revista Marília, de Juiz de Fora. Murilo Mendes – que recebeu de Belmiro as primeiras lições de literatura e poesia, entre 1912 e 1915 – chamava-o de ‘maravilhoso, homem-poeta, o João de Deus mineiro’ e a ele se referiu da seguinte forma, em A idade do serrote. Abre aspas. “Lá vem o volantim Belmiro Braga sorrindo no seu terno de xadrez e chapéu Panamá (…) Lá vem o poeta de braços abertos a pobre e rico, a letrado e a ignorante, (…) Traz, comunicante, o gosto da vida, distraindo seus iguais imaginando festa e carnaval”. Fecha aspas. Belmiro Braga morreu em 1937, aos sessenta e cinco anos.

O primeiro sucessor de Belmiro Braga foi Wellington Brandão. Também nascido na Zona da Mata mineira, no município de Visconde do Rio Branco, em 1894, formou-se em Direito pela Faculdade do Rio de Janeiro. Promotor de Justiça em Cássia, atuou como advogado em Passos, no sul mineiro. Em 1945, foi eleito deputado federal constituinte. Na Câmara dos Deputados, apresentou o projeto que garantiu aos empregados a participação no lucro das empresas e o que criou a previdência rural. De volta a Minas, chefiou a procuradoria geral do estado, no governo Bias Fortes, e serviu como Desembargador do Tribunal de Justiça, onde se aposentou.

Na literatura, Wellington Brandão iniciou-se aos vinte e seis anos, quando lançou Deslumbramento de um triste, uma coletânea de poemas. A este seguiu-se Seara da Emoção, de 1925. Suas duas primeiras obras são consideradas de inspiração parnasiano-simbolista. Na seqüência, vieram Ciranda e Bonecos de Pano, livro de contos. Engajado no movimento modernista, colaborou ativamente com A Revista, fundada, em Belo Horizonte, por Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Martins de Almeida e Gregoriano Canedo. Brandão também veiculou vários textos em Festa, publicação modernista editada no Rio de Janeiro entre 1927 e 1934. Foi no referido periódico que estampou, em capítulos, o romance Cabeça de Comarca, retrato caricatural da vida mineira. Em O Homem Inquieto expressou sua máxima identidade com o modernismo. Sua participação ativa na revista Verde, de Cataguases, forneceu mais uma comprovação de seus vínculos com o movimento. Outros livros de sua autoria foram Cantos Municipais, de poemas satíricos, O Tratador de Pássaros, Finale, Quarta República e Caminhos de Minas. Wellington Brandão faleceu em 1965, em Passos, aos setenta anos.

O segundo sucessor de Belmiro Braga foi Edison Moreira, nascido na Fazenda do Tanque, em São Francisco do Glória, então distrito de Carangola, em 27 de janeiro de 1919. Formado em Filosofia, fundou, ao lado do irmão, Pedro Paulo, a Editora e Livraria Itatiaia, que marcou época na vida cultural de Minas Gerais. Entre os diversos feitos do empreendimento, está a primeira edição brasileira de Doutor Jivago, do escritor russo Boris Pasternak, prêmio Nobel de Literatura. Traduzida por Oscar Mendes, Milton Amado e Heitor Martins, a obra mereceu tiragem superior a cento e cinqüenta mil exemplares, algo notável para o mercado editorial brasileiro do ano de 1958. Atuante também no jornalismo, Edison Moreira manteve, por muitos anos, coluna literária no jornal O Estado de Minas, sempre finalizada com a transcrição de um poema. Sua estréia na poesia se deu com a publicação de Cais da Eternidade, em 1951, livro vencedor do Prêmio Othon Lynch Bezerra de Melo. Em 1962, reuniu os poemas publicados em Cais da Eternidade, O jogral e a rosa e Poemas Existenciais no volume Tempo de Poesia. Sobre sua obra, assim expressou-se Emílio Moura. Abre aspas. “A compreensão do que é e deve ser a linguagem poética levou Edison Moreira a mergulhar na boa tradição lírica e a tirar daí os elementos essenciais com que tanto enriqueceu a sua poesia”. Fecha aspas. Já Abgar Renault qualificou a produção de Moreira como, abre aspas, “poesia densa, cheia de surpresas e tocada, freqüentemente, pelo sentido autêntico do mistério poético”, fecha aspas. Sobre Tempo de Poesia, escreveu Jorge Amado. Abre aspas. “Sua poesia está madura e densa, poesia dentro da melhor tradição da grande poética mineira, onde emoção e artesanato fazem um todo único.” Fecha aspas. Sobre o tio, escreveu o jornalista e acadêmico Pedro Rogério Moreira, em seu livro de memórias. Abre aspas. “Edison é afeto em estado puro. Ele se nutre do coração e da lira. (…) Declama sonetos enquanto vende livros”. Fecha aspas. Edison Moreira faleceu no dia primeiro de dezembro de 1989, aos setenta anos.

O terceiro sucessor de Belmiro Braga foi Milton Reis, nascido em 1929 na antiga Vila São José do Congonhal, pertencente, naquele tempo, ao município de Pouso Alegre. Formado em Direito pela Faculdade do Largo do São Francisco, em São Paulo, foi secretário de estado, deputado estadual e federal, e dirigente partidário. Cassado pelo regime militar em 1969, teve seus direitos políticos suspensos por dez anos. Em 1982, foi novamente eleito deputado federal, sendo reeleito em 86, quando participou da elaboração da Constituição Federal promulgada em 88.

Na literatura, Milton Reis teve seus primeiros versos premiados ainda na adolescência. No jornalismo, também na juventude, dirigiu o jornal A Liberdade. Ao longo dos anos, colaborou nas revistas Acaiaca, Alterosa, Silhueta, O Malho e no Suplemento Literário. Aos vinte e quatro anos, publicou Perfume Antigo. A ele seguiram-se Ritmos da Primavera e Vozes da minha fonte, que recebeu prefácio de Agripino Grieco e mereceu três edições. Sobre o referido livro de Milton Reis, escreveu Grieco, abre aspas: “Vozes da minha fonte (…) respeita a métrica, é ritmado, tem pureza idiomática. Límpido de palavras, foge às mistificações do ininteligível. (…)Prefiro encontrar nesse mineiro de Pouso Alegre um verdadeiro, um autêntico poeta. Aí se acha um nobre lirista, um homem de alma rural e fluvial”. Fecha aspas. Em 2008, Reis publicou A trajetória do poder, em que reuniu as biografias de todos os governadores de Minas Gerais, desde Cesário Alvim. Fruto de vigorosa pesquisa histórica, foi seu último livro. Milton Reis faleceu em 18 de fevereiro de 2016.

É alta, pois, a honra de suceder a Belmiro, Wellington, Edison e Milton, sob a inspiração do brilho, da bravura e do destemor de João Baptista Martins. Celebrando a memória dos que me antecederam, reconheço, respeito e admiro a contribuição que legaram ao mundo da cultura.

Com gratidão, rendo ainda homenagens a todos os que presidiram a Casa de Alphonsus de Guimaraens, envidando os melhores esforços em seu favor. Impossível não reverenciar, em particular, a figura de Vivaldi Moreira, homem de idéias e de ação, intelectual erudito e refinado, empreendedor cultural, o presidente cuja tenacidade conquistou, entre tantas outras vitórias, uma sede digna e confortável para abrigar a Academia Mineira de Letras.

Outro presidente notável, pela ousadia e pela incrível capacidade agregadora, foi o acadêmico Olavo Romano. Pela força de seu carisma, a Academia, em sua gestão, ampliou seus laços com a cidade, o povo, as universidades, os artistas e os jovens. Abrindo as portas da AML para o seu tempo, Olavo inseriu-a definitivamente no universo digital e nas chamadas redes sociais, multiplicando em várias vezes a sua visibilidade e a sua relevância. Por sua habilidade em fazer alianças e selar parcerias, atraiu o interesse do mundo corporativo sobre essa casa, o que resultou na concretização de importantes projetos culturais. Esse é o menino do Morro do Ferro, que continua até hoje com brilho nos olhos e alegria de viver. Olavo gosta de gente. Está feliz na presença do outro, respeitando as diferenças, praticando a fraternidade verdadeira.

Dirijo, também, uma palavra especial de agradecimento à Elizabeth Rennó, sucessora de Olavo na presidência da Casa de Alphonsus de Guimaraens, e a primeira mulher a ocupar tal cargo, passados cento e sete anos de sua fundação. Por conta de sua generosidade e da confiança em mim depositada, assumirei, no começo de agosto, a coordenação das atividades da Universidade Livre da Academia, função desempenhada por meu tio, Dario de Faria Tavares, durante muitos anos. Que convite poderia me sensibilizar mais? A programação já está desenhada, e será intensa. Ela prevê conferências dos melhores especialistas mineiros sobre os quatro escritores cujo centenário de nascimento comemoramos em 2016: Murilo Rubião, Mário Palmério, Manoel de Barros e Campos de Carvalho; e palestras sobre os oitenta anos de ‘Angústia’, de Graciliano Ramos; os setenta anos de ‘Sagarana’, os sessenta de ‘Grande Sertão: Veredas’, de Guimarães Rosa, e os cinqüenta anos do Suplemento Literário. Que esse auditório esteja sempre repleto para que muita gente possa partilhar das boas reflexões que, com certeza, tais apresentações irão suscitar, estando a palavra, mais uma vez, no centro do palco.

Expresso, finalmente, a minha emoção por haver sido recebido com tanta fidalguia por cada um dos acadêmicos que integra a Casa de Alphonsus de Guimaraens. Eles valorizam a AML com a riqueza de sua história de vida, o vigor de sua inteligência e, sobretudo, com o seu trabalho em favor do bem comum. Como o mais jovem do grupo, sinto-me privilegiado pelo convívio com mulheres e homens tão qualificados, que tantos serviços já prestaram a Minas e ao Brasil. Vim, sobretudo, para aprender com os senhores – e, também, para unir-me aos senhores na semeadura dos campos  vastos e férteis da literatura, da educação, das artes, da memória e da palavra. Que as futuras gerações possam colher os benefícios do que plantarmos em nosso tempo.

Muito obrigado!