Bom dia a todos. Agradeço a presença do distinto público, que nos honra com a sua atenção. Saúdo os integrantes da mesa na pessoa do presidente Wagner Colombarolli, cuja gestão será sempre lembrada como uma das mais operosas da história da Casa de João Pinheiro. Dirijo um cumprimento especial a Luiz Cláudio e a Célia Aguiar, que se deslocaram do Rio de Janeiro para atender ao convite do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Obrigado por terem vindo. A companhia de vocês alegra e enriquece o nosso encontro nessa agradável manhã de sábado.

Fundado em 1907, o Instituto agrega mulheres e homens atraídos pelas tarefas de cultivar a memória e de refletir sobre a cultura e a história construídas pelos mineiros. Aqui, pensadores de todos os rincões do estado se reúnem e se articulam para difundir e gerar conhecimento, interpretação e crítica, na esperança de contribuir para o esclarecimento e o avanço da consciência coletiva. Segura de sua dimensão nacional, apreciadora da diversidade de perspectivas e da pluralidade de pontos de vista sobre a vida, essa velha casa também acolhe, com muito gosto, os brasileiros das outras regiões, como é da vocação mineira. Hospitaleira, a instituição abre os braços para recebê-los, animada pela oportunidade da saudável e fraterna convivência intelectual, a sua razão de ser, o motivo que justifica a sua existência. Quando amigos de outros cantos do país se integram aos nossos quadros, a satisfação das confreiras e dos confrades é evidente, como se percebe hoje. Cláudio Aguiar vem do Ceará, mas também é, de certo modo, pernambucano e carioca. Sua rica trajetória é a garantia de que a produção do Instituto será amplamente beneficiada com a sua chegada, na qualidade de sócio honorário.

Nascido na Serra da Ibiapaba, no noroeste cearense, mais precisamente no sítio ‘Buriti dos Carreiros’, município de Poranga, Cláudio Aguiar viveu até por volta dos dez anos de idade na sua região, fértil em riquezas naturais, eternizada por José de Alencar no romance ‘Iracema’, a índia que se banhava na bica do Ipu, hoje um município situado na mencionada Serra. Por lá também andou o Padre Antônio Vieira, conduzindo a famosa missão de Ibiapaba, sobre a qual escreveu  depoimento substantivo.

Ainda menino, mudando-se com a família para Fortaleza, capital do estado, Cláudio Aguiar estudou no tradicional Liceu do Ceará, quando militou no movimento estudantil secundarista, tendo sido um dos amigos mais próximos de Tito de Alencar Lima, o famoso frade dominicano. Seu pendor para as letras já se manifestava naquela época: Cláudio foi o fundador do ‘Tribuna Liceal’, um jornal que começou mural e logo passou a folha mimeografada.

Aos dezoito anos, transferindo-se para o Recife, cursou o ‘clássico’ no Ginásio Pernambucano e a Faculdade de Direito. Na capital pernambucana, também colaborou com freqüência para os suplementos literários do ‘Jornal do Commercio’ e do ‘Diário de Pernambuco’.

Bolsista pesquisador do Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha, estudou a obra do filósofo José Ortega y Gasset. Pesquisador do CNPq na Universidade de Salamanca, foi por ela que Cláudio Aguiar doutorou-se em Direito Internacional, defendendo a tese sobre a imigração espanhola no Brasil intitulada  ‘Organización Social y Jurídica de los Inmigrantes Españoles en Brasil’.

De volta ao país, deu aulas na Universidade Federal Rural de Pernambuco e trabalhou no serviço público, aposentando-se em cargo de direção no Tribunal Regional do Trabalho da sexta região, sediado no Recife.

A partir de 1994, já residindo no Rio de Janeiro, Cláudio Aguiar intensificou sua atuação no campo da cultura. Hoje, preside duas importantes instituições de natureza cultural: o Pen Clube do Brasil, agremiação fundada em Londres e instalada no Brasil em 1936, com a finalidade de defender a liberdade de expressão, a literatura e as condições de trabalho dos escritores; e a Fundação Miguel de Cervantes de apoio à pesquisa e à leitura da Biblioteca Nacional.

Sua participação no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB, também é central. Como diretor da célebre biblioteca da Casa da Memória Nacional, Cláudio Aguiar é o guardião  e o gestor de um dos acervos bibliográficos mais valiosos do país, meca dos mais qualificados historiadores brasileiros. Longe de constituir fardo ou sacrifício, as funções no IHGB são fonte de grande prazer. Afinal, entre livros, Cláudio Aguiar está feliz.

Não foi por outra razão que, ao longo dos anos, incansável, ele conciliou suas atividades laborais com o amor pela Literatura e pelos estudos históricos. Pesquisou e escreveu sem parar. O resultado é a extensa obra posta à disposição do público, tão diversa quanto rigorosa.

Sua dramaturgia inclui, entre outras peças, ‘A Última noite de Kafka’, ‘Flor destruída’, ‘Antes que a guerra acabe’, ‘Brincantes do Belo Monte’, ‘A Emparedada’, ‘Somba, o menino que não devia chorar’, ‘Concerto concreto’ e ‘Suplício de Frei Caneca’, oratório dramático que retrata momentos importantes da vida do religioso, personagem principal de dois acontecimentos históricos: a Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador, de 1824.

Entre os ensaios de Cláudio Aguiar, contam-se as biografias do escritor cearense Franklin Távora e do político pernambucano Francisco Julião, alentado trabalho de pesquisa histórica de mais de oitocentas páginas que rendeu a seu autor um ‘Jabuti’, prestigiado prêmio concedido anualmente pela Câmara Brasileira do Livro. Também é fundamental destacar ‘O monóculo e o calidoscópio’, seu livro sobre a vida, a obra e o pensamento do sociólogo Gilberto Freyre, e o seu importante ‘Medidas e Circunstâncias – Cervantes, Padre Vieira, Unamuno, Euclides e outros’, uma reunião de textos reflexivos e críticos sobre os pensadores mencionados.

Estão entre as narrativas de ficção publicadas por Cláudio Aguiar, para citar apenas algumas: ‘A volta de Emanuel’, ‘Lampião e os meninos’, ‘A corte celestial’, ‘Os anjos vingadores’, ‘O comedor de sonhos’ e o aclamado ‘Caldeirão’, romance inspirado nos fatos históricos ocorridos no Cariri cearense na década de trinta, quando, liderado pelo Beato José Lourenço, um grupo de camponeses fundou uma comunidade que dividia igualmente o fruto do seu trabalho, o que a fez perseguida e finalmente destruída pelos grandes proprietários de terras e pelas forças policiais do governo Vargas, todos preocupados com a ‘ameaça’ ao status quo por ela representada.

Membro da Academia Pernambucana de Letras, da Academia Carioca de Letras e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, com livros traduzidos para a Rússia, a França e a Espanha, o novo sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais é, acima de tudo, um intelectual que ama o seu país e o seu povo, que preza a liberdade, valoriza a emancipação do homem, e tem horror a todas as formas de opressão, traços de sua formação e características de sua personalidade reiteradas na expressão do seu pensamento e em seus atos criadores.

A leitura dos textos de Claudio Aguiar comprova o compromisso exclusivo com a sua consciência, a integral independência em relação ao poder, a completa autonomia para pesquisar, interpretar e escrever, e, sobretudo, o profundo sentido ético que o impele a denunciar as estruturas injustas, a contar a história dos mártires e dos heróis esquecidos, e a narrar a versão dos derrotados, dos que não tiveram voz, nem vez.

Por tudo isso, Cláudio, é uma honra para a Casa de João Pinheiro vê-lo incorporado aos seus quadros. Seja muito bem vindo!

Muito obrigado.