Bom dia a todos. Cumprimento os integrantes da mesa diretora dos trabalhos dessa sessão nas pessoas do presidente Wagner Colombarolli e dos presidentes eméritos Jorge Lasmar e Fernando Xavier Brandão.

Dirijo cumprimento especial a Arno Wehling, doutor e pós doutor, professor titular, livre docente e reitor, cuja posse, hoje, como sócio honorário da Casa de João Pinheiro, é motivo de honra para todos nós.

De honra e de responsabilidade. É rara, para qualquer instituição, a oportunidade de acolher, em seus quadros, um intelectual com a potência de Arno Wehling, capaz de atuar, com excelência, em três áreas da vida acadêmica tão distintas quanto desafiadoras: a pesquisa, o ensino e a divulgação científica.

Essa tríade contém dimensão ética poderosa: não basta produzir o conhecimento, é preciso partilhá-lo, seja na Universidade, seja nos mais diversos espaços sociais, entre os quais se destaca o mais que centenário Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB, que Arno Wehling preside desde 1996.

Formado há décadas, e reiterado sempre, o compromisso de Arno Wehling com a qualidade de sua obra está na precisão com que define seu objeto de estudo e no percurso a seguir ao longo da atividade investigadora; no rigor com que executa a metodologia escolhida; na disposição com que desbrava a literatura disponível; na profundidade e no destemor com que leva a cabo o seu empreendimento; na correção com que se expressa e na generosidade com que debate as suas idéias e os seus argumentos, de fato interessado no genuíno intercambio de pontos de vista, vital para o aperfeiçoamento dos resultados obtidos.

Sua contribuição para o desenvolvimento da epistemologia da história e da historiografia é inestimável, bem como para o estudo das relações entre história, memória e poder no âmbito das representações sociais.

Exemplos de tal atuação estão em publicações como “Os níveis da objetividade histórica”, de 1975, “A invenção da história – estudos sobre o historicismo”, de 1994, e “Estado, Memória e História (Varnhagen e a Construção da Identidade Nacional)”, de 1999.

No campo da história do direito e das instituições, é legado definitivo a sua formulação sobre o Estado Colonial, considerado em seus aspectos institucionais e jurídicos. Provas disso são obras de importância inquestionável como “História Administrativa do Brasil – A administração Portuguesa no Brasil de Pombal a D. João”, de 1986, “Formação do Brasil Colonial”, de 1994, e “Direito e Justiça no Brasil Colonial – o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro”, de 2004, os dois últimos escritos com Maria José Wehling.

Tais menções constituem um resumo extremo da já extensa bibliografia de Arno Wehling, que as circunstâncias dessa sessão me impedem de mencionar. Tal vigor produtivo é marca de quem ama o que faz e de quem, como dizia o estadista português Mário Soares, está confortável na própria pele. Pois é exatamente essa a impressão que se pode colher ao final de uma aula ou de uma conferência de Arno Wehling: entre o historiador/ e a ciência e a arte de pesquisar, escrever e ensinar a História/ existe antiga e consistente relação de afeto, traço que distingue e eleva a sua obra, encantando alunos, espectadores e leitores.

Esse é, seguramente, um dos segredos do pesquisador disciplinado, do professor admirado, do autor bem sucedido. Não é possível transmitir, com êxito, um conhecimento que não foi gerado com ânimo, com gosto. É tarefa inglória integrar grupos de pesquisa sem entusiasmo e sem fé, é ofício tedioso e burocrático pertencer a entidades culturais se não for para enriquecê-las com o que há de melhor, de mais vivo, e de mais quente. É por seu entusiasmo e por sua fé – e por um trabalho sistemático, incansável – que a liderança de Arno Wehling confirmou – e ampliou – o destaque de que o IHGB sempre desfrutou no cenário cultural brasileiro.

Algumas de suas reflexões sobre o papel do Instituto são essenciais para compreender como Arno Wehling conseguiu consolidá-lo como espaço sofisticado e complexo de criação, discussão e circulação de conhecimento.

Uma delas está no discurso de posse, proferido em 10 de janeiro de 1996. Nele, o presidente Wehling realça a importância de compatibilizar tradição com inovação, algo que ele próprio pratica e consagra em sua produção acadêmica, quando emprega a sua inteligência para refletir, à luz dos desafios da atualidade, sobre a contribuição de figuras emblemáticas da historiografia brasileira, como Varnhagen, Capistrano de Abreu, Sílvio Romero, Oliveira Viana e Américo Jacobina Lacombe.

Outro pensamento valioso que norteia a condução de Arno Wehling à frente do IHGB é o que ressalta o valor da pluralidade ideológica que o Instituto deve preservar. São suas as seguintes palavras. Abre aspas.

‘Na perspectiva de seus quase dois séculos de história, constata-se que o IHGB foi e é um local de convergência de idéias. Convergência não significa abandono de concepções ou convicções próprias em favor das eventualmente dominantes na instituição. É estimulante e honroso saber que aqui coexistiram e conviveram racionalistas ilustrados, historicistas, positivistas, evolucionistas, marxistas e weberianos; liberais, tradicionalistas, conservadores e socialistas; românticos, realistas e modernistas. Tal pluralismo é um patrimônio de capital simbólico. Longe de corresponder a um frouxo ecletismo que tudo abrange, corresponde ao efetivo exercício do diálogo transideológico e interdisciplinar, no qual apenas se exige dos interlocutores competência intelectual e boa fé como atitude moral. O fim desse  tipo de diálogo não é vencer a discussão, mas o de mantê-la acesa, fecunda e interminável’. Fecha aspas.

Belas são essas lições de tolerância e respeito à diversidade que oferece Arno Wehling. É disso que a sociedade brasileira precisa hoje, quando reafirma sua crença na democracia, no respeito à Constituição, às leis e  às instituições como o caminho mais adequado para a vitória da cidadania e a felicidade do povo.

Outra contundente prova da vitalidade dos valores que  o Brasil todo quer ver fortalecidos é dada nessa manhã, mais uma vez, nessa velha e acolhedora casa mineira que venceu o século, que superou o tempo e os mais diversos obstáculos: a Casa de João Pinheiro, fundada em 1907, no alvorecer da república, na infância de Belo Horizonte, a então nova capital do estado, que contava com apenas dez anos quando surgiu o Instituto Histórico e Geográfico de Minas.

Aqui, Arno Wehling, mulheres e homens de boa fé se reúnem, em convívio fraterno e de respeito às opiniões divergentes, para cultivar o espírito e a mente por meio da afeição à História, e também, por que não, do culto à Memória.

Homem cordato e generoso, sua agradável companhia contribuirá, e muito, eu tenho certeza, para acentuar a vocação dessa casa, além de dignificá-la, de um jeito imenso, pela força de sua obra e o testemunho de sua vida.

Seja bem vindo!