Boa tarde a todos e muito obrigado pela presença. Cumprimento, também, os integrantes da mesa: o Prefeito Municipal, dr. José Neto; o Juiz de Direito, Diretor do Foro dessa Comarca, dr. Ronaldo Ribas; o Presidente da Câmara Municipal, Vereador João Bosco de Carvalho; o Chanceler da Comenda Ambiental Estancia Hidromineral de São Lourenço, meu querido amigo Eugênio Ferraz, líder da cultura de Minas; a senhora Ivanise Junqueira Ferraz, idealizadora da Comenda; dr. Carlos Cosenza e escritora Nélida Piñon.

Minhas senhoras e meus senhores,

São Lourenço homenageia hoje um advogado e uma escritora. Aquele, filho biológico dessa terra. Esta, filha adotiva, afetiva.

Carlos Cosenza, militante do Direito, defensor dos trabalhadores, atuou em sindicatos, prefeituras e no Ministério do Trabalho, como Delegado Regional em Minas Gerais.

Nelida Piñon, cultora das Letras, formou-se em Jornalismo, deu aulas de Criação Literária, escreveu contos, romances, ensaios e discursos. Lecionou no mundo todo, ganhou vários prêmios, e foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras.

A aproximar Nelida e Carlos, a fidelidade à causa que lhes deu o sentido da vida: a Justiça, no caso dele; a Literatura, no dela.

A irmaná-los, o amor a essa cidade, habitada por um povo hospitaleiro e generoso, que há décadas compartilha com turistas de todas as partes as maravilhas de que o Criador dotou o seu território.

A uni-los, as lembranças dos tempos felizes aqui passados. Lembranças que ativamos e renovamos nessa agradável tarde de sábado.

Belo e rico é o testemunho sobre São Lourenço dado por Nélida Piñon, em sua obra.

Quantos municípios, no Brasil, dispõem de tal privilégio? Pouquíssimos. Nos livros da autora, São Lourenço é a caixa da memória. É a utopia da infância, o território da invenção. É o lugar, ao lado de Borela, na Espanha, em que ampliou o gosto por ouvir histórias.

São Lourenço é cenário. Tem o Parque das Aguas, o caramanchão situado na aleia mais transitada, a fonte de água, à beira do lago,  e o pavilhão. Tem o hotel Rio-São Paulo, a chácara do Ramón, programa irrenunciável.

São Lourenço abriga personagens: os dois irmãos, de tamanho e peso díspares, rigorosamente inseparáveis, donos da lojinha que vendia filmes, caramelos e cartões postais; o mágico e sua filha, Norma; a mulher em trajes ciganos, encostada em uma coluna do vestíbulo do hotel; o cigano magro, de cabelos negros, que trazia a sorte nas mãos.

São Lourenço é sede de histórias: a visita de Getúlio Vargas, a consulta à cartomante, as longas viagens desde o Rio de Janeiro, baldeando em Cruzeiro, parando nas estações pobres e solitárias, que ganhavam existência a passagem fugaz do trem.

São Lourenço ata laços que não se desfazem nunca, por mais que o tempo passe: como esquecer o avô Daniel, que se agiganta à medida que dá ordens? Como olvidar a avó Amada, surgindo à entrada do salão de jantar vestida de seda e salto alto, repartindo sorrisos? Como não recordar os passeios a cavalo com o pai, acomodada na sela inglesa, de rédea solta, apostando corrida?

São Lourenço apura o sentir e o gosto, sob forma de compotas, dos doces vindos em caixetas, da manteiga Miramar, da canja de galinha, das águas da fonte Vichy, dos novos amigos, dos livros que o pai emprestava. Sob a forma dos deliciosos pingos de doce de leite, para comer sob o céu estrelado, antes de dormir.

Pois é toda essa extensa e delicada rede de afetos e memórias que nos conecta hoje aqui, quando São Lourenço celebra mais um aniversário. Vigorosa e bem cuidada, a cidade soube preservar os seus encantos, para continuar atraindo brasileiros de todas as partes. Que venham as novas gerações, tanto de advogados quanto de escritores, para beberem dessa mesma fonte de água limpa que trata corpo e alma. Que por aqui aportem outros carlos, combativos e honrados; que por aqui aportem outras nelidas, igualmente curiosas e entusiasmadas pela vida, tendo em Piñon o exemplo que inspira, e a palavra poderosa, com que encerro essa breve saudação: ‘Nada é impossível, desde que você se atreva’.

Muito obrigado.