Bom dia a todos. Cumprimento os componentes da mesa na pessoa do presidente Wagner Colombarolli, comandante firme e sereno, eficiente e generoso; e dirijo especial cumprimento à empossanda, professora Maria Efigênia Lage de Resende, que a mim concedeu privilégio imerecido: a de saudá-la na bela manhã em que celebramos o seu ingresso como sócia efetiva da Casa de João Pinheiro, a instituição cultural mais antiga de Minas Gerais até hoje em plena atividade.

Desde 1907, aqui convivem, de modo fraterno e civilizado, movidos pela afeição às ciências humanas, mulheres e homens que prezam a reflexão sofisticada, o debate inteligente, o confronto saudável e necessário de idéias divergentes. Assim tem sido desde o tempo dos fundadores, entre os quais se destacam Júlio Cesar Pinto Coelho, Diogo de Vasconcelos, Carlos Otoni, Nelson de Senna, Augusto de Lima, Prado Lopes, Francisco Alves Pinto, João Luiz Alves, Francisco Bressane, João Libânio, Albino Alves, Júlio Pinto e Estevão Pinto. Assim continuará a ser, sob a inspiração e o legado perene de suas lideranças mais recentes, como os inesquecíveis Herbert Sardinha Pinto, Marco Aurélio Baggio e Jorge Lasmar, para os quais peço uma salva de palmas.

Dotado de biblioteca, mapoteca e hemeroteca de grande importância, o Instituto Histórico e Geográfico é o guardião da memória de Minas. Editor de revista dotada de inegáveis virtudes, é difusor incansável da ‘saga mineira’. Reside, no entanto, na composição do quadro social, o seu maior tesouro. São poucas as entidades culturais capazes de reunir um grupo tão qualificado de intelectuais entre os seus integrantes. O valor de seu capital humano é, pois, intangível, incalculável, drama que se amplia, hoje, com a chegada à Casa de uma das mais respeitadas historiadoras brasileiras.

Maria Efigênia Lage de Resende formou-se em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Sua vocação fora despertada ainda durante o então chamado “curso científico”, quando beneficiou-se das lições do Professor Amaro Xisto de Queiroz, no Colégio Municipal de Belo Horizonte, e dos ensinamentos contidos nos livros de Alfredo D’Escragnolle Taunay e Dicamor Moraes, lançados no mercado editorial na década de cinqüenta.

A opção pelo ofício confirmou-se durante a formação superior, quando Efigênia mais uma vez teve em Amaro Xisto o mestre paradigmático e em Oneyr Baranda e Daniel Valle Ribeiro as referências fundamentais. O gosto pela docência acentuou-se ao longo do tempo: primeiro, como professora de ensino secundário no Colégio de Aplicação da UFMG (então dirigido por Alaíde Lisboa) e, em seguida, como responsável pelo ensino de Didática Especial de História, e, depois, de História do Brasil, substituindo João Camilo de Oliveira Torres.

Entre 1960 e 1968, Maria Efigênia Lage de Resende viveu momento crucial de sua trajetória intelectual, caracterizado por uma maior liberdade na formulação dos programas dos cursos universitários, o estímulo à experimentação de novas práticas pedagógicas e a busca de caminhos diferentes para a pesquisa. Entusiasmada pelos horizontes que então se descortinavam, a professora se engajou no movimento de luta por mudanças qualitativas no ensino da História e que resultou, adiante, na formulação, com Ana Maria de Moraes, de seu clássico curso, em livro, para as quatro séries da então chamado ‘ginásio’.

Largamente aceita por escolas de todos os cantos do Brasil, a coleção “Lage & Moraes”, lançada inicialmente em 1971, pela Editora Bernardo Álvares, obteve, também, o reconhecimento da elite acadêmica nacional, que a saudou como importante contribuição para a educação das novas gerações. Dividida em quatro volumes, foi tecnologia de ponta por ocasião de seu surgimento, introduzindo o manual de História como um lugar de formação da consciência histórica. Sintonizada com o seu tempo, a série expressou, em seus textos, a visão  das autoras contra a ‘exaltação ufanista da nacionalidade, a apropriação seletiva dos conteúdos de História, o ocultamento do conflito, e o caráter acrítico do ensino na monotonia do fio narrativo e na forma repetitiva dos conteúdos ministrados’, nas palavras da própria Efigênia. Modificada em 1984, a coleção “Lage & Moraes” foi acrescida de dois novos títulos: “História do Brasil Colônia: dominação portuguesa” e “História do Brasil Império e República: Estado Nacional”. Em 1987, também em parceria com Ana Maria de Moraes, Efigênia lançou o “Atlas Histórico do Brasil”, publicação em que as imagens cartográficas vieram acompanhadas de tabelas, gráficos, esquemas, fotos e textos explicativos. Os dois exemplos – livros e Atlas – forneceram, assim, a comprovação de uma característica definidora de Maria Efigênia Lage de Resende: a coragem metodológica e didática.

Seu percurso acadêmico foi, além disso, marcado, ainda, pelo extremo rigor da pesquisadora, como explicita sua tese de livre docência, defendida em 1976: “Formação da estrutura de dominação em Minas Gerais: o novo PRM (1889 – 1906)”, um alentado estudo sobre a política mineira do período referido com foco sobre o Partido Republicano Mineiro. Outra mostra do talento e do fôlego de Maria Efigênia Lage de Resende está no trabalho apresentado por ocasião do concurso para professora titular da UFMG: “Às vésperas de 37: o novo/velho discurso da ordem conservadora”, que veio à luz em 1991, como vigorosa e sofisticada análise do pensamento conservador das elites políticas brasileiras em sua configuração na década de trinta.

Já a trajetória de Efigênia na administração da Universidade Federal de Minas Gerais inclui a passagem pela Câmara Departamental, o Conselho Departamental e a Congregação da Faculdade de Filosofia; o exercício das funções de subchefe e chefe do Departamento de História; de Vice Diretora da Faculdade de Filosofia, e, finalmente, a ocupação do cargo de chefe de gabinete do Reitor Cid Veloso, entre 1986 e 1990.

Naquela época, marcada pela redemocratização do país e pelo advento da nova Constituição Federal, promulgada em 1988, Efigênia foi responsável por salvar, inventariar e guardar importante documentação relativa à história da UFMG: o acervo da assessoria especial de segurança e informação, subordinada à divisão de segurança e informação do então Ministério da Educação e Cultura. O operoso trabalho de tratamento do mencionado acervo foi feito sob sigilo, a fim de assegurar que a memória da universidade fosse preservada para o exame das futuras gerações. Hoje, ele está na Biblioteca Central da UFMG e é valioso testemunho do que a Universidade sofreu durante o regime de exceção que se abateu sobre o Brasil a partir de 1964.

A atuação de Maria Efigênia Lage de Resende no campo da memória institucional revelou-se notável. Ela resultou em livros valiosos, de que são exemplos “Universidade Federal de Minas Gerais – Memória de Reitores (1961 – 1990)”, editado em 1998; “Entre o passado e o futuro – Universidade Federal de Minas Gerais – 75 anos”, de 2002; “Fundação Universitária Mendes Pimentel – 1929/2004 – 75 anos”, lançado em 2005; e, finalmente, “Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa – Fundep: 30 anos”, igualmente publicado em 2005.

A passagem de Maria Efigênia Lage de Resende pela direção do Arquivo Público Mineiro se caracterizou pela condução de importantes projetos editoriais no âmbito da Coleção Tesouros do Arquivo, entre os quais os excelentes “Concentração Conservadora de Minas Gerais”, de 2009, e “Governo de Mineiros”, de 2012.

Finalmente, na coordenação geral da coleção “História de Minas Gerais”, belo empreendimento da Editora Autentica, Efigênia mostrou que continuam mais vivos que nunca o seu compromisso com a pesquisa histórica de qualidade e com a preservação da memória de Minas, objetivo central da Casa que agora a acolhe, de braços abertos.

Por tudo o que a senhora representa para a cultura de Minas e do Brasil, seja bem vinda, professora. O Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais alegra-se com a sua chegada e orgulha-se da sua companhia. Ela honra, eleva e renova os mais altos propósitos que animaram a sua fundação e que motivam a sua existência, até hoje, passados cento e oito anos.

Muito obrigado.