É uma quarta-feira chuvosa. Estaciono o carro próximo ao número seiscentos, na movimentada rua Tenente Anastácio de Moura. Toco campainha na casa onde vive, desde que nasceu, a filha do Tenente, Elza de Moura, cento e um anos comemorados no dia quatro de agosto. Madrinha de batismo de Affonso Romano de Sant’Anna, que a chama de ‘segunda mãe’, a professora aparece rápido, animada para a palestra na Academia Mineira de Letras, onde falará sobre ‘Ética e Educação’.
É o afilhado famoso, que morou em Santa Efigênia com a madrinha por quatro anos, quem sabe apresentá-la melhor: ‘Elza é uma mulher renascentista. Cantora de ópera e musica clássica, regente de coro, é também cientista, como atestam seus livros para as crianças. Ligada às plantas e aos bichos, ama o teatro, o cinema e a literatura.’
A caminho da Rua da Bahia, passamos pela Avenida Brasil, motivo para que Elza ative as memórias de um tempo em que essa região de Belo Horizonte era enfeitada por muitas casas bonitas, com roseira na frente e quintal atrás. ‘Os terrenos eram grandes. A gente plantava árvores e comia as frutas frescas. Eu ainda conservo esse hábito. Tenho quatro jabuticabeiras. É uma festa todo ano’, conta-me, testemunha da ‘Cidade Jardim’ que não existe mais. Passando pela Praça da Liberdade, ela se recorda, com saudade, de Abgar Renault, secretário da Educação no governo de Milton Campos, quando foi criada a Escola Normal Rural, em 1950, na Fazenda do Rosário, onde Elza trabalhou. ‘Ele era um homem finíssimo, que faz muita falta’. Tem saudades também de Helena Antipoff, a educadora de origem russa que chegou a Minas em 29, para ajudar a implantar a reforma do ensino, a convite do presidente do estado, Antônio Carlos. Também não se esquece de Jeanne Louise Milde, que veio da Bélgica pelo mesmo motivo, compondo a chamada Missão Pedagógica Européia. ‘Eram mulheres fortes, valentes, que abriram muito a minha cabeça’.
Enquanto descemos a Rua Gonçalves Dias, antes de virar na Espírito Santo, comprovo, na conversa com Elza, sobretudo em seu jeito de se expressar, o que ela um dia escreveu: ‘Sigo o mesmo caminho de Manoel de Barros: o da simplicidade. Um dos defeitos mais comuns nas pessoas é complicar as coisas. Quanto aos hábitos de vida, cada um tem seu ritmo próprio. O que é bom para mim, nem sempre é bom para o outro’.
Faço a pergunta clichê, sobre o segredo da longevidade. Elza de Moura diz que o mais importante é não esquentar a cabeça. Lembro-me de outro de seus escritos: ‘Não adianta se desesperar e sofrer. É melhor se acalmar, reler “A cidade e as serras”, de Eça de Queiroz, ou ouvir mais uma vez as sinfonias de Beethoven. Depois, dar um cochilo, voltar ao problema, e tentar resolver’. Pergunto se a professora, de vez em quando, toma um vinhozinho. Ela é direta: ‘Prefiro uma cervejinha, mas só por volta da meia noite. Você sabe: eu durmo tarde’.