Sebastião Fernandes Tourinho foi um dos primeiros portugueses a desbravar as terras hoje pertencentes ao estado de Minas Gerais. Descendente de Pero Fernandes Tourinho, que foi o primeiro donatário da capitania de Porto Seguro, ele deixou a cidade baiana em 1572, subindo o Rio Doce até a sua origem, hoje considerada a união dos rios Piranga, Carmo e Xopotó. A lenda conta que o bandeirante teria encontrado turmalinas verdes ou esmeraldas na região em que mais tarde, já no século dezoito, seria instalado o Distrito Diamantino. Curiosamente, quem percorre certo trecho da Rua Fernandes Tourinho, na Savassi, em Belo Horizonte, arrisca-se a encontrar as pedras preciosas que ele buscou, com tanto empenho, pelas interior mineiro. Seu nome foi inspiração…

Na manhã chuvosa de um sábado à toa, paro em frente ao número noventa e nove. Entro na Scriptum para conferir as novidades. Alegro-me quando vejo a quantidade de ótimos autores que a editora da casa lançou: Ana Martins Marques, Carlos Brito e Mello, Mario Alex Rosa, Jacques Fux, Fabrício Marques… Compro os últimos dois livros de Lino de Albergaria e a excelente reunião de contos de Marcílio Moraes França, da Companhia das Letras. Sigo adiante. Na segunda parada, no número duzentos e setenta e quatro, abasteço-me do café quente e do pão de queijo da Quixote. Pergunto a Alencar se já chegaram os novos de Michel Laub e Daniel Galera. Revejo Milton Nogueira, Marco Lacerda e Olavo Romano, ponho a conversa em dia, renovo minha crença na humanidade. Recordo a famosa frase de Monteiro Lobato, o escritor mais querido da minha infância: ‘um país se faz com homens e livros’. Uma cidade, com certeza, fica mais inteligente, mais viva e mais feliz quanto mais livrarias tiver. Prossigo na expedição. Simone me recebe cheia de sugestões na Ouvidor, no número duzentos e cinqüenta e três. O que seria dos livreiros sem vendedores como ela? Quero Aníbal Machado. Ela se entusiasma com ‘João Ternura’, comentando o texto. Preciso de Otto Lara Resende. Em um minuto, ela localiza o que procuro.

Sinto saudades. Lembro-me, com carinho, da Travessa, da Mineiriana, da Status. Ainda criança, ia com meu pai à Itatiaia, de Pedro Paulo e Edison Moreira, irmãos do presidente Vivaldi, da Academia Mineira de Letras. A editora marcou época, chegando a ter cinco mil títulos em catálogo. Foi dela o lançamento brasileiro de ‘Doutor Jivago’, do russo Boris Pasternak, Prêmio Nobel de 1958. Sucesso nacional.

Não nego: também compro livros pela internet. Há volumes que só encontro em certos sites, ou nos sebos virtuais. Que bom que a tecnologia proporciona esse conforto. Tenho muito prazer em receber os pacotes em casa, e em desembrulhá-los como meu menino Carlos abre seus brinquedos. (Sabrina, minha mulher, não sabe mais onde guardar os livros que compro). Mas o meu coração, no fundo, no fundo, ainda prefere passear pela cidade na caça aos minérios de valor, como fazia Fernandes Tourinho, pelo Rio Doce.