No fim da tarde de terça-feira, visito o ICAM, o instituto cultural fundado pelo professor Amilcar Martins, da Academia Mineira de Letras, para preservar a história de Minas. Caçador de preciosidades, ele me conta como encontrou o raríssimo ‘Triunfo Eucharistico’, publicado em 1734: ‘Estava embrulhado num papel de pão, na estante atrás de onde Seu Luis se assentava. Ele não queria me vender o livro de jeito nenhum. Dizia que estava prometido para um bispo.’ Hoje, no mundo, há apenas seis ou sete cópias do volume sobre a tradicional festa do Barroco mineiro: ‘Um outro, a pedido do Padre Simões, foi arrematado em um leilão em Londres, por José Mindlin, e doado à Igreja do Pilar, de Ouro Preto’. E a história continua: ‘Até que um dia o Seu Luis finalmente mudou de ideia e eu saí da livraria dele, em São Paulo, com a obra na mão. Folheando o ‘Triunfo’, confirmei que a festa tinha acontecido no dia 24 de maio, exatamente na data em que comprei o meu. Foi emocionante’.

Já o ‘Aureo Throno Episcopal’, de 1749, foi adquirido de uma família tradicional de Ouro Preto, no dia do falecimento do mesmo Padre Simões, em janeiro de 2009. ‘Foi o primeiro milagre dele’, disse o antigo proprietário, assim que decidiu vender o volume para Amilcar. A obra narra a chegada a Mariana de seu primeiro bispo, Dom Frei Manuel da Cruz, e faz companhia, na bela casa da rua Ceará, a sede do ICAM, a outras mil e oitocentas obras raras. Nesse dezembro, elas passaram a integrar o programa ‘Memória do Mundo’, da UNESCO, e agora são reconhecidas como patrimônio da humanidade. Mais um ponto para Belo Horizonte, que em 2016 também viu o Conjunto Moderno da Pampulha ganhar a consagração internacional.

Ao lado dos livros sobre a história de Minas, estão várias primeiras edições de obras literárias, muitas delas autografadas por seus autores para escritores importantes. De ‘Marília de Dirceu’, de Tomaz Antônio Gonzaga, Amilcar tem a edição mais rara, de 1810. ‘Mindlin achava que ela não existia. O professor Wilton Cardoso, da UFMG, é que provou a ele o contrario. Ele tinha um exemplar, que depois doou à coleção do bibliófilo paulista, hoje aos cuidados da USP’.  De Cláudio Manoel da Costa, tem os manuscritos de ‘Vila Rica’, de 1783. A obra seria publicada somente em 1839. Nas prateleiras, vejo as primeiras edições de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Abgar Renault, Cyro dos Anjos, Emílio Moura… ‘É um acervo importante para quem estuda a história da literatura. É possível entender muita coisa apenas lendo as dedicatórias’, explica.

Uma outra jóia da casa, assim como o ‘Aureo Throno’, também é de 1749. É a ‘Prodigiosa Lagoa descuberta (assim mesmo, com ‘u’) nas Congonhas das Minas de Sabará’, que relata as curas atribuídas aos poderes medicinais das águas de onde hoje é Lagoa Santa. Elas chegaram a ser exportadas para Portugal, em numerosos galões. Saio do encontro com a sede saciada, sobretudo depois de confirmar que essa biblioteca é aberta ao público, com hora marcada.