Belo Horizonte é uma cidade moça, aos cento e dezenove anos. Para ser mais exato: ainda está na adolescência, perturbada pelos hormônios, espantada pelas rápidas transformações que tumultuam a sua vida e povoam a sua face de espinhas. Alguns dizem que guarda o aspecto ambíguo das meninas de sua idade: é bonita e feia, ao mesmo tempo; encantadora e cruel; sedutora e repulsiva. Outros acham que ela ainda não descobriu a sua vocação. Há os que reclamam dos inúmeros problemas que acumula, para os quais não enxergam solução rápida. Aqueles que a amam se afligem e projetam perguntas angustiadas no ar: a que futuro terá direito? A que destino estará reservada? A escolha da resposta é de cada um: os pessimistas vêem a ampliação do caos, os otimistas sonham com dias melhores. Gosto de enxergar a sombra e a luz.

Entristeço-me profundamente, por exemplo, quando leio sobre o fechamento da livraria Van Damme, a mais antiga de Belo Horizonte, fundada em seis de maio de setenta e um pelo belga que lhe emprestou o nome e que a ela dedicou a sua vida. Johann formou gerações de leitores e apaixonados pela boa literatura. Veio com a família para o Brasil logo depois da segunda guerra. Instalou-se inicialmente em Coronel Fabriciano, no Vale do Aço, mudando-se para a capital algum tempo depois. Abriu o seu negócio sob as bênçãos dos que trabalham naquilo que gostam. Devorador de livros, elaborou, no decorrer dos anos, a famosa lista dos ‘recomendados por Van Damme’, guia valioso para os clientes que fidelizou ao longo de mais de quatro décadas. É lamentável que uma metrópole do tamanho de Beagá não seja capaz de sustentar um pólo de excelência como a casa de cultura instalada na rua dos Guajajaras, número quinhentos e cinco. O fim das atividades da livraria está previsto para 31 de dezembro. Entraremos em 2017, portanto, irremediavelmente mais pobres.

Alegro-me, por outro lado, pelo relançamento, há poucos dias, da excelente publicação Letras, integrada por equipe de primeira linha comandada pelo talento empreendedor de Bruno Golgher. Com matérias especializadas em artes, arquitetura, design e economia criativa, é distribuída gratuitamente. Volta para fazer companhia ao Suplemento Literário, preciosidade fundada há cinqüenta anos por Murilo Rubião e que, graças à tenacidade de seus editores, continua circulando Brasil afora.

Outro motivo de satisfação é a notícia do tombamento do conjunto urbano formado pelos bairros da Lagoinha, do Bonfim e do Carlos Prates. Habitada antes mesmo da fundação da capital, a região possui casario importante, do início do século passado, e é testemunha da cidade ainda criança, dos momentos em que dava os seus primeiros passos e aprendia a falar.

Vai, cidade moça! Ser adulta na vida. Mas lembrando sempre: é impossível crescer de verdade quando se perde o fio da meada. Preservar a memória é condição indispensável para compreender o presente e imaginar o futuro.