Da calçada da Avenida João Pinheiro, contemplo a bela construção onde já funcionaram o Senado Estadual e a Pagadoria Geral do Estado. Projetada ainda no fim do século dezenove, pela Comissão Construtora da Capital, a majestosa casa é vizinha ao Arquivo Público e se tornou a sede do Museu Mineiro em 1982, sendo hoje responsável por abrigar quase cinqüenta coleções representativas da cultura de Minas Gerais. A mais recente foi doada agora em dezembro pelo professor Márcio Sampaio, da Academia Mineira de Letras, com quem me encontro já na entrada do Museu, na tarde quente e úmida de quarta-feira.

O hábito começou por volta dos doze anos de idade, quando Márcio ainda morava em Itabira: ‘Desde muito novo, passei a guardar tudo o que tinha relação com o trabalho criativo, desde livros, revistas especializadas e jornais que hoje não existem mais até catálogos das exposições mais badaladas’. A vida contribuiu para que a coleção se tornasse uma das mais importantes sobre a arte feita em Minas. Chegando a Belo Horizonte em 1957 para fazer o curso científico no Colégio Padre Machado, oito anos depois Márcio Sampaio já trabalhava no ‘Diário de Minas’, quando foi colega de Márcio Rubens Prado, George Norman e Ronaldo Brandão. Escrevia uma coluna diária sobre arte, além de reportagens sobre escritores e artistas. Na Gruta Metrópole, reduto da boemia belo horizontina, foi apresentado por Mário Silésio a Murilo Rubião, que o convidaria, mais tarde, a participar da fundação do Suplemento Literário, em 66: ‘Fui editor de Artes Plásticas. Só no Suplemento escrevi mais de trezentos textos a respeito do assunto’. Sempre apaixonado pelo tema, Márcio dirigiu galeria de arte em Ouro Preto, foi o conservador chefe do Museu de Arte da Pampulha, montou o setor de comunicação da Fundação Clóvis Salgado, quando também organizou inúmeras exposições, deu aulas na Escola de Belas Artes da UFMG, atuou em vários dos famosos Salões de Arte promovidos pela Prefeitura de Belo Horizonte. Com o tempo, a coleção ficou grande demais. ‘Vi que era preciso desapegar e que estava na hora de colocar tudo isso à disposição do público’.

Márcio me guia pelo impressionante acervo, que compreende cinco décadas da arte feita em Minas. São mais de vinte mil itens, sobre a vida e a obra de mil setecentos e cinqüenta artistas mineiros. Percorrendo as pastas, vejo os dossiês sobre Álvaro Apocalypse, Amilcar de Castro, Jorge dos Anjos, Nello Nuno. Márcio conta que artistas de todos os cantos do estado estão incluídos na coleção: ‘Pedi às cidades do interior que me mandassem informações sobre os seus artistas. Recebi um bom material. Agora está tudo aqui’.

A sala em que se pode consultar o acervo é ampla e arejada, propícia à pesquisa, o que confirma a competência da gestora da casa, Andrea de Magalhães Matos. Boa notícia para os estudiosos da arte mineira, que tantos bons nomes já deu para o Brasil. Despeço-me de Márcio Sampaio otimista e com a alma leve, animado para 2017.