Chegou em casa tarde, vindo do evento em que recebera a premiação máxima, das mãos do CEO mundial. Estacionou o carro atrás do SUV com que presenteara a esposa, no aniversário de casamento. Pousou o paletó no encosto da cadeira, sentindo calor. Na cozinha, antes de subir, tomou um copo de água e fumou, sem pressa, o último cigarro do dia, o pensamento ainda fixado na festa, no assédio dos fotógrafos e nos sorrisos das jovens mulheres, fascinadas pelo sucesso e interessadas na sua amizade. Conferiu os dois ou três números de telefone anotados no celular.

Moveu a porta do quarto do filho para checar se ele estava mesmo dormindo. Acalmou-se quando viu o seu semblante tranqüilo, o corpo sob o lençol, o colar de couro rente ao pescoço, a fivela corretamente amarrada, a tira grossa e longa pendendo da cama perfumada a lavanda, roçando o assoalho bem encerado. Tudo como deve ser. Reparou ao redor. Deteve o olhar no armário entreaberto. Estranhou. Caminhou em direção a ele, pé ante pé, tomando cuidado para não acordar Danilo Augusto. Antes de fechá-lo, contou o numero de coleiras em bom estado, ainda passíveis de uso. Decidiu que valeria a pena comprar uma ou duas novas, para ocasiões especiais. Ao sair, lembrou-se das que primeiro havia ganhado do pai, na infância. Com os olhos úmidos, dirigiu-se aos seus aposentos, medindo os passos. A mulher seguramente já estava dormindo e ele não queria incomodá-la.

No pesadelo da noite, tinha a garganta desimpedida, as veias à mostra, os movimentos fluidos. Apavorado, correu até o espelho mais próximo, para certificar-se. Aquilo sim, é que era nudez. Precisava saber se o seu infortúnio se estendera à família, ou se era a única vítima. Tomou o primeiro taxi, rumo à casa, aflito pela possibilidade de encontrar Danilo Augusto também desprotegido, indefeso, solto. Ansioso, esbarrou nos móveis da sala, machucando-se nas quinas. A cena de horror se confirmou. Viu o menino entretido com um livro, encostado na cama, o pescoço branco, liso, desamarrado. O armário, agora com as portas escancaradas, estava vazio. De volta à rua, constatou que podia correr, pular, dançar, sem nada para restringi-lo ou constrangê-lo, livre da corda que o conduzia pela vida. Por um segundo – mas apenas por um segundo – uma pontada de prazer cutucou-lhe o corpo, tentando abrir espaço entre pele, nervos e ossos. Ciumenta, sua mente logo coibiu o intruso, tornando-o desagradável. Recobrando o controle, tratou logo de tomar a providência necessária para que tudo voltasse ao normal. Desesperou-se quando procurou pelas lojas que vendiam coleiras e não as encontrou.

Acordou empapado em suor, o coração acelerado, o sangue circulando rápido e quente. Num impulso, levou as mãos ao pescoço para constatar, com alivio, que ela continuava lá, abraçada à sua garganta, fiel. Ajustada.