Indo com frequência ao Rio de Janeiro, passei a almoçar, repetidamente, no mesmo endereço: o belo casarão do século dezenove onde fica o Bar Ernesto, na Rua da Lapa, numero quarenta e um, perto dos arcos e da Sala Cecília Meireles. A história do restaurante começou quando os alemães Ernest e Martha Mehler chegaram ao Brasil, em 1935, fugindo do nazismo, com fome de liberdade. Hoje, ela continua graças ao neto do casal, Flávio, que manteve as receitas famosas do cardápio, sem descuidar de atualizá-lo. Já provei de quase todos os pratos da casa, mas de sobremesa não vario nunca. Peço a mesma. Descubro que a receita é do bisavô de Flávio, Adolf Goldberg. Entre uma garfada e outra na torta de maçã com creme, volto no tempo.

Navego pela internet e passeio pelas histórias dos antigos restaurantes de Belo Horizonte. Leio que, em 1950, Theodoro e Anella Peluso abriram a fábrica de massas na Rua Maranhão, em Santa Efigênia, cativando o paladar do belo horizontino e inspirando os filhos a continuar no ramo, o que deu origem a ótimos estabelecimentos. Vinda da Toscana, Dona Derna Nicolai Biadi honrou a tradição da família, na gastronomia desde 1890, e abriu em BH a famosa casa com o seu nome, hoje dirigida pelo filho Memo.

Resgato os que desapareceram deixando saudades, como a Cantina do Ângelo, perto da Praça Sete. As lembranças me levam a um lugar sempre cheio, que servia a comida saborosa em fartas travessas postas sobre a mesa. Continuo pela Afonso Pena. Na esquina com Tamoios, reencontro o Hotel Normandy, que mantinha um dos melhores restaurantes de Belo Horizonte até meados da década de oitenta. No Maletta, faço uma parada no Lucas, até hoje firme e forte, onde o Seu Olímpio, garçom que entrou para o Guinness  por exercer a profissão durante setenta e seis anos me servia o impressionante filé à surprise, depois das aulas da noite na Faculdade de Direito, a dois quarteirões.

Finalmente, chego ao ponto:  o mítico Alpino foi fundado em 1956 pelos imigrantes austríacos que fizeram, por décadas, o melhor apfel strudel da cidade, bem parecido ao que degusto no Rio. Em uma entrevista, o filho do casal, Eberhard, relata que o pai perdeu tudo durante a primeira guerra, passou fome e se reergueu sozinho para criar a família. Junto com a mulher, veio para o Brasil na década de vinte, para ganhar a vida, longe dos conflitos da Europa. Tinham fome de paz.

O Alpino funcionou até 97. Seus anos finais foram na Avenida do Contorno, na Savassi, mas seus tempos de glória, quando conquistou a aura que o marcou para sempre, foram vividos no número cento e oitenta e sete da Rua dos Tupinambás, no hipercentro de Belo Horizonte. Como esquecer a íngreme escadaria de madeira que conduzia ao salão do restaurante, sempre à meia luz? Sinto de novo o calor da mão firme de meu pai, segurando as minhas, ajudando-me a subir…