É irresistível: na semana da estréia, levo meu filho Carlos para ver ‘Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood’, longa que marca o retorno de Renato Aragão ao cinema brasileiro, depois de tanto tempo. Ao humor ingênuo e despretensioso e ao luxo raro da trilha sonora do insuperável Chico Buarque – a mesma da primeira versão, de 81 – se juntou o prazer de boas lembranças.

Ainda criança, ia ao Cine Jacques, onde hoje é o Shopping Cidade, para assistir, com meus amigos, a ‘Marcelino, pão e vinho’, ‘Bernardo e Bianca’, às comédias de Mazzaropi e, é claro, às histórias protagonizadas por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, o quarteto de clowns da tevê que marcou a infância da minha geração. ‘ET – o extraterrestre’ viria em 82. Foi a primeira vez que vi, impressionado, o fim de uma fila emendar-se ao seu começo, abraçando todo o quarteirão. Os lugares não eram marcados. Quem chegava primeiro, pegava as melhores poltronas. Os lanterninhas ajudavam os atrasados a se acomodar. Os baleiros ofereciam seus produtos durante as duas horas de projeção: mentex, chokito, prestígio, batom, banda, moedas e cigarrilhas de chocolate. O programa continuava no Teds, lanchonete ao lado, famosa pelo cachorro quente e pela banana split, inesquecível pela comprida mesa em torno da qual mais de quarenta pessoas podiam assentar-se. Em frente, ficava a padaria Stromboli, de saudosa memória. Anos depois, na mesma calçada, só que um pouco mais adiante, pontificou a ‘Torre Eiffel’, que marcou época na cidade, junto com a ‘Doce Docê’ e suas coxinhas de camarão e de frango com catupiry, e a ‘Tia Clara’.

Se o Jacques reinava soberano na Rua dos Tupis, a Rio de Janeiro era o endereço do majestoso Cine Palladium, sem dúvida o mais confortável e espaçoso da cidade, reaberto em ótima hora por louvável iniciativa do Sesc. Também me lembro de haver assistido a ótimos filmes no Cine Metrópole, na Rua da Bahia, antiga sede do Theatro Municipal, erguido em 1906, muitas vezes citado por Pedro Nava e lamentavelmente demolido, em 83, para dar lugar a uma instituição financeira; e no Cine Brasil, inaugurado em 32 e felizmente recuperado, graças à Vallourec. Obrigatória, igualmente, é a menção ao Pathé, aberto em 48, na Cristóvão Colombo, e fechado desde a década de noventa. Do outro lado da avenida, em frente ao imóvel que ele ocupava, a referência permanece o restaurante ‘La Traviata’, de 87. Contíguo a ele, o portão cerrado me faz recordar o encerramento das atividades da Livraria Status, que tanta falta faz à Savassi.

‘Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravooo!’, canto com Carlos, a alma aquecida pela saudade. O sentimento, no entanto, não é de tristeza. Inspirado pela letra da música, sigo em frente, planejando levar meu filho ao Palácio das Artes, que comecei a freqüentar tão novo quanto ele. Afinal, ‘o espetáculo não pode parar…’