Um dos objetos mais valiosos que guardo comigo é o aparelho de som herdado de Tia Rita, irmã de meu pai. Ele ficava na sala de sua casa, em Patrocínio, e é uma das lembranças mais vivas das férias passadas com ela e Tio Olímpio, no interior. É um prazer ouvir os vinis que salvei do verdadeiro dilúvio que se abateu sobre eles, quando chegaram os CDs. Carlos aprendeu rápido a manejar os discos. Adora posicionar a agulha sobre as faixas que pretende escutar, fazendo-me lembrar das eletrolas ou das radiolas que acompanharam a minha infância. O que meu filho mais aprecia, no entanto, é mexer-se ao som das músicas que põe para tocar.
Também gosto de dançar. Adolescente em Belo Horizonte, vivi a moda da lambada, que tomou conta da cidade e do país, chegando até a ser exportada. Depois, de mansinho, como é do seu estilo, chegou o forró, encantando a todos com o seu jeito simples e despretensioso, e resgatando uma bela tradição da cultura do Brasil, sobretudo da gente do sertão. Um dos melhores espaços para dançá-lo ficava na rua Álvares Maciel, em Santa Efigênia, onde funcionava o Lapa Multishow, fechado em 2011.
A dança afro chegou pelo contato com professores excelentes, como Evandro Passos. O curso era no Centro Cultural da UFMG, na Praça da Estação, e atraía gente interessada em conhecer as raízes de muitos dos ritmos brasileiros. Tomei gosto. Em Boston, freqüentava semanalmente o The Dance Complex, escola onde africanos vindos do Senegal, do Mali e da Costa do Marfim divulgavam a sua arte acompanhados de talentosos percussionistas. Ninguém saía da sala como havia entrado, tamanha a energia ativada pela prática. Existe algo mais forte que mover-se, por uma hora e meia, ao som de atabaques?
A dança de salão me deu a alegria de conhecer Juliana Macedo, da Mimulus, companhia conhecida no mundo inteiro. Competente, ela teve toda a paciência do mundo com o aluno ainda pouco habituado aos movimentos do bolero e da bachata. Também passei pela Companhia da Dança, na rua Curitiba, onde Joyce e Márcio Cubano foram fundamentais para que minha mulher e eu ganhássemos um pouco mais de destreza. Em Madri, fazíamos aulas semanais de salsa com o ótimo Iñaki, professor basco, atento e rigoroso.
Dançar faz bem para a saúde: a liberação dos movimentos e a possibilidade de encadeá-los ao som de uma música vibrante alegram a alma, renovam as forças e dão sentido às coisas. Tem sido assim ao longo da história. Presente nas comunidades mais primitivas, a dança está nos rituais sagrados, expressando a relação entre o homem e as divindades, mas também faz parte dos ritos profanos. Enfeita as festas de semeadura e colheita, serve para seduzir e formar pares, para marcar a passagem a outros estágios da vida. Se existe um remédio eficaz contra muitos males, gostoso e fácil de tomar, arrisco a dizer, modestamente, o seu nome: é a dança. Quem se habilita?