Ficara até mais tarde no escritório, entre cálculos sofisticados e relatórios complexos. Movido a café e água mineral com gás, o diretor financeiro era capaz de passar o expediente todo assentado na cadeira de couro em frente à mesa de jacarandá, os tapetes caros decorando a sala refrigerada. Atolado em planilhas, demorava a perceber a passagem das horas.

Já era noite escura quando desligou o computador e desceu ao andar térreo do edifício, para onde o porteiro-manobrista conduziria o seu carro. No saguão de entrada, sem que pudesse prever ou controlar, seu olhar cruzou-se com o da faxineira. O primeiro impulso foi o de afastá-lo logo. Uma força misteriosa conduziu-o de volta. Mulher no pleno vigor dos seus vinte anos, ela se movia com graça e energia, esvaziando cinzeiros, espanando os móveis e os quadros da recepção. Profissional atenta, foi rápida: ‘O senhor precisa de alguma coisa?’ Desconcertado, o diretor financeiro não sabia o que responder. A voz da mulher lhe agradou. Era quente. Apreensivo, sentiu seu corpo aquecer-se. Vacilando na resposta, chegou a gaguejar: ‘Não, não é nada’. Palavras desobedientes escaparam de sua boca: ‘Como você se chama?’ Surpresa, a mulher limitou-se a dizer: ‘Liliana’. ‘Meu nome é Caio’. De novo as palavras, atrevidas, subvertiam os comandos da sua mente. ‘Ah, Liliana. Muito prazer’. Salvo pelo ronco do motor do carro, despediu-se da moça apressado, como quem precisa fugir.

Uma semana depois, o encontro aconteceu de novo. Caio puxou conversa. Durante quatro ou cinco minutos, falaram sobre o clima, o trânsito, a poluição. Dessa vez, conseguiu reparar na cor dos olhos e no formato da boca de Liliana. Passados três dias, o diálogo esticou-se pelo dobro do tempo. Versou sobre os perigos de morar na capital, a violência, a vontade de voltar para o interior. Caio relembrou da infância passada na fazenda do avô, assustando-se ao perceber que a criança que havia sido ainda estava viva. Liliana recordou-se de quando era menina de roça, do tanto que gostava de correr e subir em árvores, solta no mundo. No dia seguinte, Caio notou os cabelos anelados e as mãos, as unhas bem tratadas, pintadas em esmalte vermelho. Já estariam assim na primeira vez? Seus batimentos cardíacos se aceleraram. Em duas semanas, os dois não conseguiam conversar menos de meia hora.

Foi o porteiro-manobrista quem primeiro estranhou a amizade. A fofoquinha chegou rápido aos ouvidos de Caio, que, com freqüência crescente, pegava-se com a imagem de Liliana passeando por sua cabeça, solta no mundo. Incomodado, precisou de whisky. Melancólico, reviu cenas da infância passada na fazenda do avô. Ainda confuso, girando sobre sua cadeira de couro, o diretor financeiro olhou repetidamente em torno, contemplando sua mesa de jacarandá, os tapetes e a sala refrigerada, suas planilhas e o computador. Depois de um suspiro profundo, mandou demitir a faxineira.