‘O vovô sabe fazer mágica’. Entre as inúmeras qualidades do pai de minha mulher, essa sempre foi uma das que mais interessou a meu filho Carlos. Como esquecer seus olhinhos atentos e intrigados diante dos truques sensacionais apresentados por meu sogro? Homem raro, Fabio Lippi Fonseca era generoso, informal e espontâneo. Talvez por isso cativasse tanto os netos. Empático, lia para os cegos do Instituto São Rafael, aos quais também dava aulas de reforço escolar. Sem alarde, doava parte de seus recursos, mensalmente, para instituições de caridade. Foram poucas as pessoas que conheci capazes de preservar o coração puro pela vida afora, como ele conseguiu, até falecer, na noite dessa quarta-feira, dia 15.

Atleticano fiel, herdou do pai, Fábio Fonseca, ex-presidente do clube, a paixão pelo futebol. Nos últimos tempos, mais caseiro, preferia acompanhar os jogos pela tevê. Engenheiro aplicado, atuou por décadas na Usiminas, onde era muito querido por seus numerosos amigos. Entusiasmado por tecnologia, entendia tudo de computadores, sempre disponível para socorrer o genro, pouquíssimo versado no campo da informática. Pai amoroso, entregou-me, em confiança, o seu tesouro mais precioso: a filha com que tive o privilégio de casar-me. A ele, serei grato para sempre, honrado pela responsabilidade de contribuir para perpetuar a sua linhagem.

Assim que minha mulher e eu contamos a Carlos o que tinha acontecido, ele pediu que escrevêssemos uma carta a um mágico solicitando que o vovô sobrevivesse e se tornasse imortal. Sabrina respondeu que seu pai não morrerá nunca, pois continuará vivo no coração e na memória. É a experiência que tenho, e que me ajuda a seguir em frente.

Meu pai se foi há onze anos, em janeiro de 2006. Internado para uma operação cardíaca no dia 5, faleceu dez dias depois, em decorrência de complicações pós-cirúrgicas. Nunca experimentei dor mais aguda que essa. Jamais pensei que a saudade fosse tão forte. Com razão, passei a desconfiar de que ela seria para sempre. Não estava errado. Até hoje, meus olhos se enchem de lágrima quando conto a Carlos algumas das histórias do vovô Expedito, ou quando vejo Gabriela no colo da mãe, e me dou conta de que ela, assim como o irmão, também não terá a alegria de conhecer o avô. É a recordação do belo tempo passado ao lado de meu pai que alimenta a alma e concede o alento de que preciso para continuar firme, a cabeça erguida, criando meus filhos com alegria e fé na vida.

Foi muito provavelmente assim – com o olhar na linha do horizonte – que papai conseguiu enfrentar a morte de meu avô Secundino. E é também com a memória aquecida e confortada pelos momentos gostosos que estamos vivendo juntos que espero que Carlos e Gabriela se lembrem de mim, quando chegar a hora.