Arranjara coragem para abrir a porta da biblioteca, por tanto tempo evitada. Entrou medindo os passos. Aproximou-se da parede à sua frente, para enxergar melhor. Os diplomas disputavam lugar com os títulos honoríficos e as condecorações. Nas prateleiras, contou as pastas lotadas  de recortes de jornais e revistas relativos a algum de seus feitos.

A memória do dia de sua posse no Tribunal Superior permanecia acesa. Entre os colegas, nenhum atingira ponto mais alto que ele. Na cidade de onde viera, renderam-lhe homenagens e ofereceram-lhe banquetes. Fez questão de convidar os contemporâneos do grupo escolar, sobretudo para deixar clara a distância entre eles, agora alargada enormemente pela elevação de seu status.

Com medo, o coração acelerado, dirigiu-se à escrivaninha. Estaria pronto para experimentar, outra vez, as emoções que o haviam levado às safenas? Não conseguiu resistir. Fitou, de novo, os porta-retratos, acariciando-os. ‘Ele não tira a camisa desse time. Que paixão é essa?’. Vencido pela saudade, fez o que não devia. Desrespeitando a orientação do cardiologista, abriu a gaveta central do móvel. Os álbuns estavam empilhados exatamente como na última vez que os manuseara, um dia antes do infarto. Repetiu o gesto, percorrendo, uma a uma, as fotos do filho único, dezoito anos incompletos, morto ao resvalar pela janela do apartamento de amigos, em mais uma madrugada de festa. Os olhos marejados, o peito comprimido por dor aguda, precisou apoiar-se no espaldar da cadeira para não perder o equilíbrio. Já assentado, respirou fundo, conseguindo acalmar-se. Com a voz restante em sua garganta, chamou por Olívia, que o acudiu entre resmungos, praguejando por não haver escondido a chave, conforme o pedido do médico. Preocupada, a cuidadora lhe ministrou os remédios das três da tarde e o levou até o quarto. Aceitando descansar até a hora do jantar, acabou caindo em sono profundo.

Tiago apareceu-lhe em sonho. Incansável, pedia que o pai jogasse bola com ele e que o levasse, pelo menos uma vez, para ver as partidas de seu clube preferido, o que lhe tomaria um tempo que nunca esteve disponível. Inquieto, despertou em suadouro, como se ardesse em febre. Apreensiva, Olívia tomou-lhe a temperatura e aplicou-lhe compressas frias na testa, rezando em voz alta. Refeita do stress, serviu-lhe a dieta prescrita. Ele demorou um pouco até recuperar-se, indo de novo para a cama somente por volta das dez da noite.

No dia seguinte, não desceu para o café da manhã. Aflita, Olívia o procurou por todo lado, sem sucesso. Seu patrão só foi encontrado no final da tarde, completamente sozinho, na arquibancada do principal estádio de futebol da cidade, que visitava pela primeira vez. Tinha o pensamento longe, o olhar perdido. O funcionário que autorizara a sua entrada fora tocado pela insistência com que lhe rogava: ‘Eu só tenho mais um dia. É minha única chance. Não me negue isso, pelo amor de Deus’. Voltou para casa excitado, falando sem parar, jurando haver visto o maior craque do mundo em campo, fazendo gols. ‘Tinha menos de dezoito anos’, repetia, incansável. No dia seguinte, não desceu para o café da manhã.