Sempre fui muito mais próximo da prosa que da poesia. Acostumei-me à crônica, ao conto e ao romance, para não falar da literatura jurídica, consumida ao longo da vida universitária, ou dos ensaios sobre a História, paixão particular. O texto poético, no entanto, aos poucos, vem me capturando, com suavidade. Pego-me, de repente, lendo Drummond em voz alta para minha mulher à mesa do café, em manhã inspirada. Flagro um Mário Quintana na casa de minha mãe, totalmente fascinada pelo gaúcho de Alegrete, e não resisto. Sou apresentado a Leminski pela professora Raquel Junqueira Guimarães e me rendo.

Por isso, foi com grande prazer que recebi, acompanhado de amável dedicatória, o mais recente livro de Yeda Prates Bernis, a ocupante da cadeira de número seis da Academia Mineira de Letras.  Com projeto gráfico de Marconi Drummond, “Cercanias” atrai imediatamente quem o toca, propondo logo, na capa e na contracapa, um jogo delicado de texturas, o que motiva o leitor a interagir imediatamente com a obra.

Já no início, Yeda informa que o livro é comemorativo de seus noventa anos e que deseja assinalar, com gratidão, os nomes de algumas pessoas que têm participado de sua vida e de sua poesia. Abre a lista citando seu marido, o saudoso jornalista Ney Octaviani Bernis, que tive a alegria de entrevistar, quando estudante de Comunicação Social, para um projeto de recuperação da memória do jornalismo mineiro.

A relação de nomes é concluída com a menção a Ângela Vaz Leão, professora emérita da UFMG, autora de acurado artigo sobre a produção de Yeda, publicado na edição do segundo semestre de 2015 da revista Scripta, do Programa de Pós Graduação em Letras da PUC Minas. A professora analisa os onze primeiros livros da poeta, indo de ‘Entre o rosa e o azul’, lançado em 1967, até ‘Entressombras’, de 2013, para, finalmente, afirmar: ‘a obra poética de Yeda Prates Bernis (…) é, sem dúvida, exponencial no panorama da poesia brasileira contemporânea.’ Não é diferente o que costuma dizer Nélida Piñon: ‘Em Belo Horizonte mora uma das melhores poetas do país’. Márcio Sampaio, o coordenador editorial de ‘Cercanias’, assinando o prefácio do livro, escreve: “Diante de pequenos acontecimentos do dia a dia, a autora vai apreendendo o ser da poesia, para construir imagens transcendentes que, por contaminação mágica, se tornam luminosa celebração da natureza e da vida”.

Composto de trinta e uma jóias, ‘Cercanias’ convida para viagem que seduz e encanta. Fala do tempo vivido, recordado ou imaginado, da convivência e da saudade, de luz e de sombra. É manso como a brisa e forte como o vento. Leve e profundo, é para uso diário, merecendo a mesa de cabeceira. Nos versos de ‘Piano’, leio, já totalmente capturado pela beleza do livro: ‘Passeio em estrada branca de luar, as mãos reverberam luz. Bateio estrelas no céu’.