Corre o ano de 1995. Estudante de Comunicação, quero muito conhecer Barbosa Lima Sobrinho, considerado pelo Guinness o jornalista há mais tempo no exercício da profissão, no mundo todo. Depois de meses de insistência, ligando toda semana para dona Eurídice, sua secretária, consigo agendar a entrevista com o decano da imprensa brasileira para publicação no MARCO, da PUC Minas, até hoje um dos melhores jornais laboratórios do país.

É num sábado ensolarado que bato campainha no número 217 da Rua Assunção, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Logo ouço os latidos do pastor alemão Dick, de doze anos, que chega à porta acompanhando Raimundo. O assistente do doutor Barbosa me leva até a biblioteca e, em poucos minutos, volta com café quente: ‘Ele já está descendo’. Reparo em torno. Nas estantes, centenas de livros. Entre eles, os mais de cinqüenta títulos de autoria do dono da casa. Na mesa de centro, ‘Chatô’, a biografia de Assis Chateaubriand escrita por Fernando Morais. Sobre o volume, uma lupa pronta para auxiliar na leitura.

Nascido no Recife em 1897, Barbosa Lima Sobrinho começou a escrever para jornais em 1919. Dois anos depois, já na capital federal, estreou no saudoso Jornal do Brasil, onde viria a ser, mais tarde, o redator chefe e para o qual redigiria, ao longo da vida, mais de quatro mil artigos. Deputado federal em 35 e constituinte em 46, governou Pernambuco entre 48 e 51. Presidiu o Pen Clube do Brasil e a Academia Brasileira de Letras, para onde entrou em 37. Anticandidato a vice-presidente em 74, na chapa liderada por Ulysses Guimarães, foi o primeiro signatário do pedido de impeachment de Fernando Collor, em 92. Passos firmes vêm da escada. Aos noventa e nove anos, o doutor Barbosa ainda se exercita em sua bicicleta ergométrica e gosta de caminhar. A conversa é amena. As reflexões são instigantes. Quando atinjo o tempo combinado com dona Eurídice (quarenta minutos), aviso ao entrevistado. Ele responde: ‘Fique mais. Vamos continuar a prosa’. Saio depois de quase duas horas.

Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em três ocasiões, Barbosa Lima Sobrinho inspirou várias gerações de jornalistas pelo vigor de suas posições em defesa do país, de seu desenvolvimento econômico e de sua autonomia política. Não teve medo nem se omitiu. Até falecer, no ano 2000, aos 103 anos, militou no jornalismo de idéias, todas resultantes de pesquisas e estudos profundos.

Menos falada é a atuação do doutor Barbosa no campo da literatura. Autor de ensaios e de contos, também escreveu crônicas. Saboreio, no momento, um volume raro: o seu ‘Crônicas da Juventude’, todas publicadas no ‘Jornal do Recife’ entre 1919 e 1921 e reeditadas em boa hora pelas Edições Bagaço, por iniciativa da Academia Pernambucana de Letras. É leitura deliciosa para quem quer matar as saudades de um homem que atravessou o século com sabedoria, preservando sempre a alegria de viver e o amor pelo Brasil.