Trancada em seu quarto desde o final da tarde, quando chegara do colégio, Camila recusou-se a jantar, insensível aos apelos do pai, que bateu à sua porta várias vezes, insistente. Aumentando o volume do som de seu i pod, retirou o lacre do produto e ingeriu, ansiosa, a cápsula azul, na esperança de que a fome passasse. No pain, no gain: topava qualquer sacrifício para livrar-se dos cinco quilos a mais detectados logo depois das festas de fim de ano. Fora indisciplinada e tola. Agora, pagava o preço. Uma hora de ginástica por dia já não era o bastante. Já começavam a reparar. Algumas indiretas das amigas no whatsapp acenderam o sinal amarelo. A gota d´água fora o olhar de Marcelo, disfarçando o desprezo. Precisava tomar uma providência, e rápido.

Não demorou a decidir-se. Tinha que apostar alto. Recordou-se da frase com que uma amiga costumava enfeitar alguns posts no face: ‘A vida exige ousadia’. Por uma hora de consulta, a doutora Eliana Sarmento cobrava uma quantia que Camila não obteria se não estivesse tão empenhada. O anel presenteado pela avó no dia de sua primeira comunhão foi vendido às pressas, por menos do que de fato valia, mas lhe rendeu o suficiente para marcar o horário.

A doutora a impressionou pela beleza dos traços, o corpo esguio e a voz macia, capaz de embalar um sono bom. ‘É mais bonita ao vivo’, disse para si mesma a jovem paciente, excitada. Estivera a ponto de pedir-lhe um autógrafo no exemplar de seu livro de cabeceira: ‘Você merece ser linda’, best seller nacional. Recuara a tempo, temendo o ridículo. As amigas diziam sempre que o importante era ser blasé. Famosa por seus tratamentos estéticos e nutricionais, a doutora Eliana aparecia freqüentemente em programas de televisão e nas páginas das revistas femininas, dando dicas de saúde e bem estar. Tinha até blog. ‘Dinheiro bem gasto’, repetiu Camila para si mesma, no caminho de volta para casa, as mãos ocupadas com os cremes e os xampus adquiridos na lojinha da doutora, contígua ao consultório.

Ana Maria tardou uns cinco dias para descobrir que a filha começara a tomar os remédios. Foi por acaso, num dia em que chegou em casa apressada e faminta, doida por um bom almoço, depois de passar quase toda a manhã entretida na academia, entre aulas de alongamento e spinning e sessões com o personal trainer. Avisada de que sua comida ainda demoraria alguns minutos para ficar pronta, resolveu entrar no quarto da filha, àquela hora no curso de inglês, tencionando resgatar o vestido que lhe emprestara para uma festa. Flagrou os frascos dentro de um pacote escondido no fundo do armário, atrás de uma caixa de bijous. Preocupada, leu os rótulos e pesquisou na internet do celular sobre os efeitos dos medicamentos.  Ao conferir a receita, encontrou o nome da doutora Eliana Sarmento. ‘Como essa menina arranjou dinheiro para pagar a consulta?’

Com os vidros nas mãos, a porta do armário aberta e o espelho à sua frente, Ana Maria suspirou fundo. Lembrou-se da juventude viçosa e do corpo perdido para sempre depois da gravidez e do parto de Camila. Viajando no tempo, deixou-se paralisar por alguns instantes. Lacrimejando, sentiu um misto de saudade e raiva percorrer-lhe a espinha. Mesmo relutante, finalmente ingeriu a cápsula azul, na esperança de que a fome passasse.