Stênio acordou cedo, como sempre. Ainda estava escuro quando devolveu o par de óculos ao rosto e procurou os chinelos com os pés. Chegara, finalmente, a tão ansiada sexta-feira, dia de alegrar-se com a presença, no sobrado, da filha e da neta, com quem almoçava por volta da uma da tarde, abrindo uma programação que seguia até as quatro e terminava com o lanchinho preparado por Natalina, para repor as forças. Disciplinado, o velho tomou o banho frio que seus médicos diziam ser o melhor para a circulação do sangue. De roupa trocada, passou o café e tomou uma caneca cheia, acompanhada do pão preto que nunca deixava faltar em casa. Em seguida, partiu para a caminhada diária pelo quarteirão, em passo acelerado, fundamental para manter a forma física. Aos oitenta anos, cuidava da saúde tão bem quanto de seus investimentos financeiros, cuja posição conferia três vezes por semana, em telefonemas e visitas aos gerentes de banco. Excitado pela perspectiva de encontrar as meninas, precisou distrair-se para conter o afobamento, mantendo-se ocupado com a resolução de pequenos problemas domésticos até o meio dia: trocou lâmpadas, consertou eletrodomésticos enguiçados, pediu à Natalina que pregasse botões em ternos antigos. Sistemático e severo, cobrou energicamente da fiel ajudante que lavasse suas camisas com mais cuidado, para não desgastar os colarinhos.

Junia estacionou o carro em sua vaga na garagem do sobrado com a pontualidade costumeira. Chegara, finalmente, a sexta-feira, dia de alegrar o homem que, com tanto carinho, a adotara quando ainda tinha quatro anos, salvando-a da vida solitária e infeliz no orfanato e de um destino incerto e, provavelmente, cruel. Haveria ser humano mais afetuoso que Stênio? Tratada a pão de ló, a menina teve uma infância abençoada. Jamais lhe faltara nada. Pelo contrario. Estudara nas melhores escolas da cidade, praticara esportes, viajara pelo mundo. A vida na casa grande de Stênio sempre lhe sorrira. Era só obedecer. O pai a tratava com generosidade, mas não admitia contestações às suas ordens. Junia entendeu rápido a regra do jogo, e topou.

Apenas uma vez se insurgiu contra o desejo paterno. Foi aos doze anos, idade em que seu corpo viçoso começou a emitir os primeiros sinais da mulher que nela cresceria em pouco tempo, bela e atraente, farta em carnes e curvas. Chegara em casa cansada de uma manhã de provas escolares. Queria sossego. O pai não permitiu a pausa, convocando-a para cumprir suas obrigações. Surpreendendo a si mesma, a menina se negou. Estava exausta. Não teria o fôlego necessário para desempenhar suas tarefas. O homem não teve dúvida: aplicou-lhe castigo tão convincente que Junia nunca mais se atreveu a manifestar vontade própria. Comida pelo tempo, aquela memória se perdeu no esquecimento, sem deixar sequer um traço de mágoa na alma boa da menina.

Fortemente incentivada pelo pai, mesmo solteira Junia conseguiu adotar Aline, na época com quatro anos. A menina também tem de tudo, desde que se curve, como em uma religião, à lei sagrada: nunca desobedecer ao vovô Stênio.

 

*IMAGEM MERAMENTE ILUSTRATIVA.