Primeira Parte

 

Volto cansado de meu último périplo pela cidade. Vaguei por mais de duas horas, tropeçando nas calçadas, o tonto que não bebeu, o amargurado desde sempre. Passeio tolo, que serve apenas para confirmar a decisão tomada na véspera: acabar com tudo. Com esse ânimo, movo a maçaneta da porta de casa e entro apressado na sala, tentando  lembrar-me de onde escondi a pistola.

Reviro gavetas e remexo em armários. Desço ao porão, escancaro baús, vasculho os cantos todos. Em meu quarto,  levanto o colchão da cama, na esperança de encontrar a arma oculta no estrado. Corro para a cozinha. Abro a geladeira para o último copo d’água. Engasgo. Respiro fundo. Assentado em um tamborete, busco retomar o controle sobre as minhas emoções. Sim, é preciso recuperar a calma. Só assim conseguirei executar a ação necessária. Tomar um bom banho pode ser o remédio.

Tiro a roupa devagar. Depois de desamarrar os cadarços dos tênis encardidos, livro-me das meias brancas e contemplo meus pés, as pontas paralelas sobre o tapete em frente ao box do banheiro. Com a mão direita, modulo o grau de abertura da torneira. Com a esquerda, testo a temperatura da água. Acho no mínimo estranho esse tipo de providência numa hora como essa. Cuidados derradeiros.

Deixo que a água lave meu corpo exausto da vida. Demoro-me no ritual de ensaboar braços, pernas e tronco, como se pudesse desaparecer sob a espuma. Faço o mesmo com os cabelos, derramando dose excessiva de xampu sobre eles. A nuca dói, a lombar reclama, as pernas querem descanso. Para que insistir? Já é hora. Chegou a minha vez.

Enrolado na toalha, abro a porta do guarda-roupas. Esse é um momento importante. Com que roupa quero ser encontrado? Indeciso, jogo sobre a minha cama três ou quatro calças jeans, uma ou duas calças de brim, camisas sociais, camisetas pólo, o cinto preto, cuecas de cores variadas. Do criado mudo, recolho o relógio de pulso e o frasco do perfume predileto. Quero usá-los. Lanço novo olhar para a escrivaninha onde deixei a carta. Está intacta. Releio-a repassando cada parágrafo, cada frase. Finalmente, coloco-a no envelope já preenchido com o nome de minha mãe. Não peço perdão, que não é o caso. Sugiro apenas que compreenda as minhas razões e que desconfie de Deus. Nem sempre Ele sabe o que faz.

Encontro a pistola entre os sacos de arroz, feijão e sal, na dispensa em que guardo mantimentos. Afinal, essa ideia sempre me alimentou… Confiro: está carregada. Previdente, organizei tudo com antecedência. Zeloso, pedi à companhia que desligasse o telefone. Não quero correr o menor risco de ser interrompido. Conforme revelado em um dos sonhos, o desfecho deve dar-se no jardim localizado nos fundos da casa, longe do ruído e do movimento da rua. Vestido como se fosse a uma festa, equipo-me devidamente e assento-me na cadeira de balanço do caramanchão feito ainda nos tempos de minha avó. No i pad, ouço os rocks dos anos oitenta e volto ao início da minha adolescência, talvez a única etapa da vida em que tenha me sentido verdadeiramente feliz. Quero viajar sorrindo, satisfeito, em estado de graça.

Revejo a minha trajetória toda em segundos, como se visse um filme em aceleração máxima. Mariana abre a janela na madrugada fria de julho e me agradece, sorrindo, a música favorita, tocada pelo adolescente ingênuo que sempre fui. Com o violão nos braços, agradeço, esperançoso, à primeira mulher cortejada, sem imaginar o tamanho da dor que ainda viveria ao lado dela. Aproximo o cano do ouvido direito. Agora sou eu que quero abrir a janela. Para outra dimensão. Para sempre.

 

Segunda Parte

 

Do cadeira de balanço, o i pad tocando Kid Abelha, a arma encostada no ouvido, a espinha ereta, a postura solene, os olhos semicerrados, metidos em lembranças de tempos remotos, Ricardo não é capaz de ouvir o ruído da janela de seu quarto. Mariana é hábil no manejo das fenestras centenárias. Não, não é mais o violão que ele tem nas mãos, nem as flores, nem os cigarros, nem as alianças com o pedido de noivado e, depois, de casamento. Não é mais o pedido de desculpas. Nem o remorso. Nem a decadência. Muito menos a depressão.

Por um segundo, a mulher hesita, indecisa entre contemplar a cena prestes a acontecer  e o dever de evitá-la. Apoiando os cotovelos no parapeito, a respiração atrapalhada, o coração disparado, mal pode acreditar que o marido está a um passo de cumprir a promessa tantas vezes adiada. Terá coragem?

Na juventude, atrevido, Ricardo acordou a vizinhança inteira na noite do aniversário de quinze anos de Mariana. Cantou e tocou diante da sua janela: Legião Urbana, Lulu Santos, Titãs… No dia seguinte, no colégio, entregou a ela uma carta e uma rosa, como nos tempos antigos. ‘O último romântico’, ela pensou, sem saber ao certo o que sentir. A insistência do rapaz venceu a sua resistência. As suas gentilezas derrotaram o seu receio e, em pouco tempo, a distância que ainda os separava. Capitulando, a menina aceitou ingressar no mundo do colega, sem imaginar o tamanho da dor que ainda viveria ao lado dele.

Agora, o grande amor da sua vida está ali, resoluto, o destino por um minuto. Não mais a paixão pela música, não mais o gosto pelos esportes, a afeição por viagens. Sem tempo para seguir divagando, e tocada pela urgência de salvar o pai de Abel, Mariana deixa o quarto, apressada, esbarrando nos móveis, machucando-se nas quinas, o salto alto freando seus movimentos, a imagem do filho internado num canto da memória, entubado, consciente, suplicando-lhe, com os olhos, para não deixar Ricardo morrer.

Abel não pode mais falar com as palavras. É o que dizem os médicos, que lhe ensinaram um método para comunicar-se com os pais pelos movimentos oculares. Disciplinado, incansável, em pouco tempo o menino aprendeu as regras. Agora, comunica-se pelas janelas da alma, como diz a avó, mãe de Ricardo, mulher piedosa, que acredita nos desígnios de Deus e em sua bondade infinita: ‘Se Ele te deu esse lindo par de olhos, meu anjinho, é porque Ele sabia que você seria capaz de dizer tudo por meio deles’. Mariana estudou o assunto com o rigor típico. Ela e o filho conversam sobre todos os assuntos. Ricardo não.

A porta da cozinha, que dá acesso ao jardim, está trancada. Em desespero, Mariana  decide arrombá-la, chutando-a com força. Frágil, a velha estrutura de madeira cede quando a mulher arremessa dois ou três eletrodomésticos contra ela. Já descalça, a marcha descoordenada, Mariana grita o nome do marido, pedindo-lhe que não a deixe só.

Na garagem escura, atrasado para o trabalho, o pensamento nos negócios que precisa fazer e no dinheiro que tem que ganhar, Ricardo entra no carro apressado, sem olhar para os lados. Girando a chave na ignição, dá a partida já com o som ligado. A voz de Herbert Vianna no volume máximo impede-o de ouvir os gritos: A esperança não vem do mar, nem das antenas de tevê. A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê…

Mariana chega tarde demais. Descalça, a marcha descoordenada, grita o nome do filho, o corpo estendido no chão. Ricardo abre a janela do carro, sem acreditar no que foi capaz de fazer. A mulher olha para ele , o coração suspenso, o destino por um minuto.

Ainda haverá tempo?