Cresci ouvindo meu pai falar, com gosto, da obra de Eça de Queiroz. Ele adorava ‘A ilustre casa de Ramires’, ‘O primo Basílio’, ‘Os Maias’. Sua geração consumiu amplamente a literatura produzida em Portugal. Ao lado de Camões e de Fernando Pessoa, Eça formou, por muito tempo, o trio dos escritores da lusofonia mais populares no Brasil, até que se abrisse mais uma vaga, nas últimas décadas do século vinte,  para a entrada, no seleto grupo, de José Saramago, prêmio Nobel em 1998.

Na virada do século, a lista  ficou mais diversificada, extrapolando as fronteiras de Portugal para incluir os autores africanos, antes divulgados apenas nas universidades. Mia Couto e José Eduardo Agualusa são dois nomes conhecidíssimos do público brasileiro. Para a professora Letícia Malard, da UFMG, Valter Hugo Mãe, português nascido em Angola, é, atualmente, um dos que melhor escrevem na língua pátria, no mundo. Mas nem só do talento dos homens é feita essa literatura nos dias de hoje.

Descobri ‘O Vale da Paixão’ graças à professora Márcia Marques de Morais, do programa de Pós Graduação em Letras da PUC Minas. Impressionado com seu entusiasmo ao recomendar-me o livro de Lidia Jorge, apressei-me em comprá-lo. Preferi a edição original, publicada em Portugal em 1998. No Brasil, a obra ganhou outro título: ‘A Manta do Soldado’ e saiu pela Editora Record, em 2003. Não me arrependi. Para quem, como eu, estuda a representação da figura do pai na literatura, o texto da escritora portuguesa é um prato cheio.

Foi meu primeiro contato com a autora, que tem produção vasta e já ganhou prêmios importantes. Nascida no Algarve, em 1946, Lídia formou-se em Filologia Românica em Lisboa e deu aulas no ensino médio. Mais tarde, morou em Angola e em Moçambique nos anos derradeiros da presença colonial portuguesa na África, experiência decisiva para compor alguns de seus romances. Na lista dos que escreveu, aparecem, entre outros, ‘O Dia dos Prodígios’, ‘O cais das merendas’ e  ‘A costa dos murmúrios’, além de ensaios, contos e histórias infantis. Ao contrario, porém, de outros portugueses, como Miguel Sousa Tavares e Lobo Antunes, Lidia ainda não ganhou a notoriedade merecida entre os leitores brasileiros.

A personagem-narradora de ‘O Vale da Paixão’ não tem nome. É identificada como a filha de Walter Dias, ou a sua sobrinha. Vive na casa de Valmares, no seio de numerosa família comandada pelo patriarca Francisco Dias. Está junto da mãe, Maria Ema, e do padastro, Custódio, mas é a ausência do pai biológico a presença mais marcante em sua vida. Terminei a leitura do livro com vontade de voltar a ela. Já estou na quarta ou quinta. A cada vez, surpreendo-me mais com o que descubro. É para a mesa de cabeceira.