Raji é nepalês. Saiu de seu país e morou por algum tempo em Singapura, até vir para o Brasil. Hoje, trabalha como garçom no excelente ‘Indian Gourmet’, restaurante indiano que funciona em Belo Horizonte na Rua Alvarenga Peixoto, desde dezembro do ano passado. Impressiona-me o português fluente em que se comunica. Depois de servir o lassi de morango que Carlos liquida em poucos minutos, traz a porção de samosas de frango e de legumes que minha mulher tanto aprecia.

Na parede em frente à nossa mesa, um quadro estampa a fascinante imagem do Taj Mahal, mausoléu construído em Agra no século dezessete pelo imperador que decidiu homenagear a memória de sua esposa favorita, com quem gerou quatorze filhos. O monumento foi erguido sobre o túmulo dela, junto ao rio Yamuna. Patrimônio da Humanidade, assim como a nossa Pampulha, ele foi incluído, ao lado do Cristo Redentor, na nova lista das sete maravilhas do mundo, refeita em 2007, pelo voto dos internautas. Incrustado com pedras preciosas, sua cúpula é adornada com fios de ouro. Dizem que precisou do trabalho de vinte mil homens para ficar pronto. É considerado uma das maiores provas de amor da história.

Amar não é, no entanto, verbo de uso exclusivo de monarcas como o marido de  Mumtaz Majal.  As formas de conjugá-lo são inúmeras. Se o amor romântico  inspira realizações grandiosas, a paixão pela raça humana também é capaz de gestos poderosos. Para ficar na Índia: Madre Teresa de Calcutá e Mahatma Gandhi amaram tanto o seu povo que acabaram legando, não só a ele, mas a todo o planeta, um importante testemunho em favor da solidariedade e da liberdade. No Brasil, são incontáveis os atos de amor de que o ser humano é capaz, quando movido pelo que tem de melhor. Lembro-me de obras imensas, como as deixadas pela Irmã Dulce, na Bahia, ou pelo sociólogo mineiro Herbert de Souza, o Betinho, idealizador da campanha contra a fome. Em Araxá, é tocante o trabalho de José Tadeu Silva, fundador da Casa do Caminho, espaço de acolhimento e oração, e da sua Casa de Saúde, voltada aos que mais precisam. Em Belo Horizonte, é impressionante a obstinação de Tereza Guimarães Paes à frente do Hospital da Baleia.

As provas de amor, entretanto, também estão nos detalhes, nas mínimas coisas, naquilo que cabe no cotidiano. E são dadas gratuitamente, ao longo de anos, de décadas, sem que se perceba o seu valor. Muitas vezes, partem das pessoas de convivência freqüente, ou diária. Mas nada impede que cheguem de modo surpreendente, inesperado, vindas de estranhos. O importante é ter olhos para enxergar as pedras preciosas e os fios de ouro. Incompetente, não sei calcular, por exemplo, quantos taj Mahals de afeto já recebi de meus pais, de Sabrina, de meu irmão ou de meus filhos. Desconfio, porém, de que Agra seja pequena demais para sediá-los.