Na frente do espelho, o cenho franzido, desagrada-me o que vejo. Diante de mim há um velho cansado, que embaralha as idéias. O policial destemido e implacável é uma lembrança remota, quase ridícula. Meus cabelos são ralos, bem distintos daqueles que já exibi com garbo, nos tempos da mocidade viril. Passo as mãos entre eles, em cautelosa inspeção, procurando vestígios do que foram um dia. Finalmente me rendo: perderam o tônus, o brilho, o vigor. Estão fracos, quebradiços, caem muito. Na pia, encontro mais um chumaço de fios. Irrito-me por não conseguir localizar exatamente quando tudo isso começou.

Aproximo-me da imagem refletida, chegando a curvar-me para enxergar os detalhes. Apalpo o queixo, meço o tamanho do papo aninhado abaixo dele, resistente a dietas e remédios, um cachecol de pele e gordura. Arqueio sobrancelhas. Confiro os olhos miúdos. Como os da raposa que um dia fui, ainda se deslocam em movimentos rápidos, procurando o inimigo. Meus sentidos, no entanto, estão embotados. Talvez por causa dos medicamentos que me prescrevem  e de alguns outros, que tomo por conta própria: para o coração, para o fígado,  para os nervos. Tateio as bordas da louça branca, procurando as cápsulas. Lá estão elas, companheiras da minha rotina, acondicionadas em pequenos frascos. Abro o primeiro deles e cato duas ou três drágeas, engolindo-as com a ajuda da água fria da torneira.

Com fúria, assôo o nariz. O ruído é indecoroso, mas inofensivo. A casa é grande. A vizinhança é toda de surdos. Ninguém me ouve, nem mesmo a velha, que, a essa hora, está na horta, colhendo verduras, como faz toda manhã, assim que chega. Ela retornará em poucos minutos e porá a mesa do café. Em seguida, fará a faxina. Depois, picará as folhas e fritará a carne para o almoço. Flagro, aqui e acolá, as sujeiras que lancei contra o espaço ao redor. Algumas se fixam na pia, outras, nos azulejos da parede. Ainda há as que infectam o espelho. Deixo que permaneçam onde caíram, fazendo companhia às que expeli ontem, e anteontem. Planejo, com discreto prazer, trazer a velha até o banheiro e, entre gritos, contar quantas ela não retirou. Quero ver nos seus olhos o medo de ser mandada embora. Assôo com raiva dobrada, como se pudesse expulsar-me de mim mesmo. Quero que a voz da velha trema. Minúsculos vasos se rompem em sangue. Um pequeno rio vermelho segue o seu curso. Escancaro a torneira. Contemplo a cara molhada, as gotas de água fria deslizando sobre os vincos. Não tenho lábios. No lugar deles, meio apagado, há um risco lilás, de carne insuficiente, sem força para conduzir os movimentos da boca.

Enxugo o rosto na toalha branca. Desço as escadas, os passos vacilantes. No centro da sala, vejo a velha amordaçada, sob a mira de uma arma de fogo, os olhos cheios de medo. O assaltante me encara entre o desprezo e o riso. Sabe que a vizinhança é toda de surdos e que ninguém me ouvirá. Minha voz treme. Minúsculos vasos se rompem em sangue. Um pequeno rio vermelho segue o seu curso.