Minha geração foi presenteada, na transição da infância para a adolescência, com ótimos lançamentos editoriais. Lembro-me, com carinho, das histórias da “Turma do Posto Quatro”, publicadas pelas Edições de Ouro entre 73 e 79 (e impressas ao longo de toda a década de oitenta), em trinta e cinco volumes. Por muito tempo, acreditei que o autor dos livros tinha o nome que aparecia na capa: Luiz de Santiago. Só bem depois é que vim a saber que esse era o pseudônimo de Hélio do Soveral.

Nascido em Setúbal, Portugal, em 1918, Hélio logo veio para o Brasil, onde se casou. Na década de setenta, ocupava as manhãs de sábado e as noites de segunda-feira na programação da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, com o ‘Teatro de Mistério’, dono de grande audiência. Versátil, chegou a fazer roteiros para histórias em quadrinhos e para contos de terror. Na literatura, sua obra registra mais de duzentos títulos, entre os quais se encontram, ainda, os dezenove números da série “Os Seis”, que saiu entre 75 e 84, também pelas Edições de Ouro, sob o pseudônimo de Irani de Castro. Falecido aos oitenta e dois anos, em Brasília, era dono de texto bem escrito e sabia compor com engenho as tramas policiais que tanto desafiavam a inteligência dos leitores, a maioria entre dez e treze anos.

Outra série que marcou época foi a Vaga- Lume, da Editora Ática, surgida em 1973. Até hoje ativa, nela pontificaram escritores como os paulistas Marcos Rey (de ‘Memórias de um gigolô’, sucesso na tevê) e Maria José Dupré (do clássico ‘Éramos Seis’, que virou novela), e os mineiros Luiz Puntel (de ‘Açúcar Amargo’) e Lúcia Machado de Almeida, autora de dois dos livros inesquecíveis da minha juventude: ‘O escaravelho do diabo’(1974) e ‘O caso da borboleta Atíria’(1975).

Nascida na Fazenda Nova Granja, em Santa Luzia, em 1910, Lúcia era irmã de Aníbal e tia de Maria Clara Machado. Vindo para Belo Horizonte aos seis anos, começou a escrever acidentalmente, em 1942, para entreter os filhos, quando eles estavam doentes em casa, de sarampo. Foi quando criou a personagem Piabinha e suas aventuras no fundo do mar. São de sua autoria, igualmente, livros preciosos sobre o Ciclo do Ouro em Minas: ‘Passeio a Sabará’, ‘Passeio a Ouro Preto’ e ‘Passeio a Diamantina’. Respeitada por seus pares (Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga eram pródigos em elogios à sua obra) e amada por seus milhares de leitores, assim como Hélio do Soveral, Lúcia também teve vida longa, morrendo aos noventa e cinco anos, em Indaiatuba, São Paulo.

Ambos, porém, seguem vivos  e fortes na minha memória afetiva. Graças a eles, em alguma medida, ampliei meu gosto pela leitura, hábito capaz de mudar a vida para sempre, e de fazê-la, com certeza, uma aventura bem melhor e muito mais interessante.