É impressionante como certas pessoas fazem falta. Uma delas estaria completando noventa anos agora. Nascido em São Paulo, médico psiquiatra, jornalista e escritor, Roberto Freire publicou livros excelentes, como os romances ‘Cléo e Daniel’ e ‘Coiote’, e as coletâneas de ensaios ‘Ame e dê vexame’ e ‘Sem tesão não há solução’, estrondosos sucessos editoriais da virada dos anos oitenta para os noventa. Destemido, também se aventurou pelos contos eróticos, a literatura infantil e a policial, e até pela telenovela. Vinha a Belo Horizonte, com alguma freqüência, para ministrar palestras e cursos destinados a divulgar a Somaterapia, método por ele desenvolvido, com base, entre outras, nas idéias anarquistas e nas teorias de Wilhelm Reich. Cheguei a participar de algumas de suas práticas, com grande proveito. Lembro-me de um excelente work shop na Faculdade de Medicina da UFMG, à Avenida Alfredo Balena. Foi quando tive a oportunidade de experimentar um pouco da visão de mundo proposta por Roberto. Incisiva, contundente, de alto impacto, sua palavra era clara e sonora. Ao contrario de como atua o homem morno, tipo tão comum hoje em dia, ele agia sempre na temperatura máxima. Viveu intensamente até 2008, quando nos deixou. Com alegria, constato que o seu legado está preservado, já que, pelo menos no Rio de Janeiro e em São Paulo, há grupos ativos de somaterapeutas disseminando seus ensinamentos.
Outro psiquiatra paulista que marcou época foi José Ângelo Gaiarsa, falecido há sete anos. Autor de quase quarenta livros, tornou acessíveis ao leitor brasileiro informações complexas de seu campo de estudo, antes restritas aos especialistas. Seu ‘Tratado Geral sobre a Fofoca – uma análise da desconfiança humana” (Editora Summus, 1978, 238 páginas) é de uma atualidade incrível. Sofisticado e polêmico, ajuda a entender um dos temas que estão presentes com mais força nas relações sociais. ‘O que é corpo?’, lançado pela famosa Coleção Primeiros Passos (Editora Brasiliense,1986, 82 páginas) é uma jóia preciosa, cuja leitura abre imenso horizonte. Dono de fabuloso poder de comunicação e de síntese, Gaiarsa seguramente contribuiu para melhorar a vida de muitas pessoas, o que se ampliou com a sua presença na televisão. Popular por manter, por uma década, um quadro fixo em programa matinal, abordava problemas emocionais à luz do que de melhor havia, na época, no repertório da psicologia. Foi Gaiarsa um dos pioneiros na introdução das técnicas corporais na psicoterapia brasileira, hoje já bastante assimiladas pelo meio social, gerando benefício incalculável a milhares de pacientes.
Em comum, Freire e Gaiarsa tinham a firme esperança de que a raça humana podia melhorar, e muito. Cada um a seu modo, sonharam com a possibilidade de libertar a sociedade das repressões, da ignorância e do preconceito. Nada mais necessário, hoje em dia, que relembrar a obra deles.