Num dia desses, não faz muito tempo, Carlos voltou da escola com um boneco de pano do Saci Pererê metido dentro de uma garrafa. Sintonizadas com o que há de mais autêntico na cultura brasileira, suas professoras contaram à turma a história desse divertido personagem do folclore nacional. Meu filho adorou conhecer as travessuras que ele faz e a irreverência com que se comporta. Seu pai se lembrou imediatamente de quando viu, pela primeira vez, o garoto do capuz vermelho, entre bambuzais, pulando de uma perna só, sempre com o cachimbo na boca.

Isso se deu graças a Monteiro Lobato, o autor que me apresentou a uma galeria de tipos inesquecíveis, levados para a televisão em 1977, sob direção do talentoso Geraldo Casé, pai da excelente atriz Regina, que herdou o seu sobrenome. Cresci fascinado pelo Visconde de Sabugosa, pela Emília, por Pedrinho e Narizinho. Poucos lugares me seduziram tanto, durante a infância, como o Sítio do Picapau Amarelo, em cujas imediações era possível deparar-se, além do Saci, com a temível Cuca, uma espécie de ‘jacaroa’ dotada de vasta cabeleira loura. Guloso, imaginava, com água na boca, como seriam os ‘bolinhos de chuva’ preparados por Tia Nastácia. Diante do jeito terno e acolhedor de Dona Benta, magistralmente interpretada pela atriz Zilka Salaberry, não havia criança que resistisse. A voz de Gilberto Gil cantando a trilha de abertura do programa me encanta até hoje, passados tantos anos.

Capaz de criar universo ficcional tão potente, que cativou as meninas e os meninos de várias gerações, Monteiro Lobato não legou ao Brasil apenas uma importante obra literária infanto-juvenil. De conhecida militância nacionalista, foi um dos principais líderes da campanha “O petróleo é nosso”. Empreendedor, chegou a abrir várias companhias de perfuração de poços petrolíferos. No campo da literatura, especialmente, seu olhar foi amplo, abrangendo toda a cadeia produtiva mobilizada pelo ofício do escritor. Visionário, ele compreendeu que o livro era também, no bom sentido, um objeto de consumo, devendo, por isso, ser graficamente atraente e bem cuidado, para capturar o interesse do comprador e permitir o florescimento  do mercado editorial brasileiro, incipiente e inexpressivo nas primeiras décadas do século vinte. Corajoso, ele comprou, em 1918, a “Revista do Brasil”, publicando textos de autores inéditos e incentivando, assim, o surgimento de novos nomes. Arrojado, fundou a “Editora da Revista do Brasil”, que seria seguida pela “Monteiro Lobato & Cia”, empresa que se transformou, posteriormente, na “Companhia Editora Nacional”. Foi Monteiro Lobato um dos primeiros a organizar um sistema nacional de distribuição de livros, baseado no trabalho de vendedores autônomos e de representantes espalhados por todo o território do país. De forte espírito prático, dizia: “Livro é sobremesa. Tem que ser posto debaixo do nariz do freguês”. E você, está servido?