Sem hesitar, desferiu o pior insulto que lhe veio à cabeça contra a menina que tomava conta de sua filha. A ele acrescentou, aos berros, a informação de que não a deixaria, naquele dia, levar a marmita com que a remunerava, em represália a um ou dois deslizes cometidos no trato com o bebê. Por um segundo, pensou até que o melhor seria aplicar-lhe um bom tapa na cara, como fizera de outras vezes. Pronta para sair, preferiu não correr o risco de atrasar-se. Profissional, sabia da importância da pontualidade em seu ramo de atuação. Levou a criança para a casa da mãe, comprometendo-se a buscá-la na manhã seguinte. Chegou ao seu privé a tempo de despir-se com calma, borrifar-se com a fragrância da moda e cobrir-se com o tecido sugerido pelo cliente.

Deixou a porta entreaberta, conforme combinado. Satisfeito, ele a encontrou como pediu nas mensagens trocadas pelo whatsapp: embalada em cetim vermelho. Aproximou-se. Mandou que ela afastasse o lençol. Avaliou a cor e os dentes, frente e costas. Tocou a pele viçosa, cheirando a perfume badalado, quitado em numerosas prestações. Sem dificuldade, constatou a autenticidade das fotos postadas. Salivou, desejando atracar-se logo com as carnes quentes da morena de boca grande e ancas largas. Alojou o paletó sobre a cadeira. Desabotoou a camisa, ansioso. Atirou cintos e sapatos contra o espelho. Desfazendo-se das peças restantes, viu-se em pêlo, animal de unhas afiadas, o pescoço projetado para frente, o maxilar retesado, os cabelos fartos em desalinho. Atacou a presa. Mergulhado em suas curvas, o suor escorrendo entre braços e pernas, o peito arfando, consumiu, voraz, o corpo rijo da fêmea contratada. Custou a saciar-se. Faminto, ao primeiro ápice de seu prazer seguiram-se mais dois ou três, ao longo da madrugada. Foi embora por volta das sete da manhã, deixando-a quatrocentos reais menos pobre.

Seguiu direto para o trabalho. Em poucos minutos soube, pelos colegas, que o presidente da companhia estava de volta, depois de várias semanas viajando. Tentou, por um bom tempo, passar despercebido, na esperança de não ser incomodado. Estratégia inútil. No final do expediente, antes que pudesse escapar, o chefe entrou pela porta entreaberta de sua sala, como temia. Com o sorriso estampado no rosto tratado a cremes caros, comprados a vista, ele cumprimentou seu empregado com a voz macia, as mãos bem cuidadas afrouxando o nó da gravata. Macho alfa, apropriou-se de todo o território: abaixou as persianas, reduziu a claridade do recinto, alterou a temperatura do ar condicionado, mudou a ordem dos porta-retratos sobre a mesa. No frigobar, serviu-se de água com gás e uma dose de uísque. Aproximando-se, conferiu a textura da camisa do funcionário e a qualidade de seu terno, comprados no cartão de crédito. Fez um elogio sincero. Os ruídos vindos da rua foram diminuindo aos poucos. A noite cobriu o céu com seu pano escuro. Dono das horas, o líder empresarial do ano foi embora sem quitar as extras, largando o seu colaborador mais uma vez exausto, precisando aliviar a tensão.