Muito se fala nessa palavra: coragem. Quando a pronuncio com cuidado, prestando atenção nas suas sílabas e na sua sonoridade, percebo que ela tem corpo. É feita de ossos e músculos. Não é oca. Olhando-a com lupa, vejo que abriga as duas partículas reveladoras de sua real substância: ‘cor’ e ‘agem’. Sobre a primeira delas, não tenho qualquer dúvida. A coragem é vermelha como o sangue que circula pelas veias humanas. A segunda, por sua vez, me ajuda a entender sua exata dimensão. A coragem exige ação. Ela é o contrário da omissão, da abstenção ou da evasão. Requer presença e pulso. Também não combina com a neutralidade. Exige posições claras, definidas, amparadas em boas convicções. Não pede radicalismo nem intolerância, nocivos à convivência social. Quer apenas firmeza.

Não há nada de abstrato nisso. Pelo contrário. A coragem é ferramenta prática indispensável para enfrentar a vida moderna, prosseguindo de cabeça erguida e olhar na linha do horizonte. Num mundo em que é cada vez mais comum ceder o próprio espaço, abrir mão de direitos e até da dignidade, nada é mais necessário que a coragem. Para falar, para fazer, para esticar a corda, para lutar. Ainda que custe tempo, energia, disposição. Mesmo que, no fim do caminho, não seja possível colher a vitória.

Entre os exemplos de coragem que a história do Brasil oferece, um dos que mais me seduz é o de Cipriano Barata. Nascido na Bahia, em 1762, ele participou da Conjuração Baiana, em 1798, e da Revolução Pernambucana, em 1817. Em  1823, fundou o seu primeiro veículo de comunicação: ‘O Sentinela da Liberdade da Guarita de Pernambuco’.

Detido em várias oportunidades por desafiar o poder, sempre que mudava de prisão, publicava um novo jornal. Criou o jornalismo do cárcere. O ‘Sentinela da Liberdade’, que por tantas vezes teve suas edições interrompidas, mudava de nome de acordo com o lugar em que Barata estava preso. Também se chamou “Sentinela da Liberdade na Guarda do Quartel General” e  “Sentinela da Liberdade na Guarita de Villegaignon”.

Outro personagem fascinante foi José do Patrocínio. Nascido em Campos dos Goytacazes em 9 de outubro de 1853, ele iniciou sua atuação na imprensa com apenas vinte e dois anos, publicando o quinzenário satírico ‘Os Ferrões’. Em 1877, tornou-se redator da ‘Gazeta de Notícias’, em cujas páginas deflagraria, dois anos mais tarde, a campanha pela abolição da escravatura no Brasil. Em 1881, comprou a ‘Gazeta da Cidade’ e, em 87, fundou e dirigiu o jornal ‘A cidade do Rio’, quando intensificou sua militância abolicionista.

É claro que não é possível mensurar precisamente a contribuição de Barata para o processo de independência do Brasil ou a influência de Patrocínio sobre a abolição, mas é inegável que, com a sua indiscutível coragem, ambos fizeram a sua parte. E muito bem feita.