Saúdo o distinto público, que me honra com sua amizade. Cumprimento os integrantes da mesa. Saúdo o presidente Cláudio Aguiar, querido confrade, e estendo meu abraço à Célia, sua leal companheira, intelectual de primeira linha.

Com o olhar na linha do horizonte, como me ensinaram meus antepassados, contemplo o oceano, metáfora do infinito. Minha alma se banha em suas águas imensas. No jogo de suas ondas, não há passado, presente ou futuro. O tempo é um só, habitado pela realidade e pelo sonho, que dançam juntos o balé da vida, completando-se um no outro. A infância ressurge com vigor e viço, como o bem mais precioso da memória, e de novo estou na casa de meu pai, na terra natal.

Evoco a bênção de Expedito, homem do cerrado, que se foi aos noventa anos, no verão de dois mil e seis, mas está mais vivo que nunca, em seu legado perene de dignidade. Em muitas décadas de fidelidade ao exercício da advocacia e da atividade parlamentar, soube lutar pela causa justa. Sua arma foi a palavra. No foro ou na tribuna, esgrimiu o argumento insuperável do verbo, apoiado no valor que essa Casa considera fundamental para a humanidade: a liberdade de expressão.

Da Zona da Mata mineira busco Diana, sua companheira por tanto tempo, me alegrando e enternecendo com sua presença hoje, nesse encontro de amigos. Formada em Letras Clássicas no Rio de Janeiro, professora de Língua Portuguesa, Latim e Grego, fez da sala de aula, por longos anos, apaixonada trincheira em favor da cultura, dos livros e da Literatura, o outro valor a que o Pen dedica a sua razão de ser.

Não saí impune. Fiz Direito, Jornalismo e, agora, curso o Doutorado em Literatura e coordeno a programação cultural da Academia Mineira de Letras, onde ocupo a cadeira de numero oito. No mestrado, na UFMG, redigi a dissertação ‘Do direito à comunicação’, quando fortaleci minhas crenças sobre a importância da liberdade de expressão. No Instituto Histórico e Geográfico de Minas, o patrono de minha cadeira é o padre José Joaquim Viegas de Menezes, precursor da imprensa no estado, e responsável, em 1807, pela primeira publicação  de que se tem notícia nas minas gerais.

Do ventre de suas montanhas contemplo, mais uma vez, indissociáveis, a Liberdade de Expressão e a Literatura. Na saga da Inconfidência Mineira, lutando pelo Brasil, vejo Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e Alvarenga Peixoto, os poetas da Arcádia de Vila Rica. Avançando no tempo, observo o surgimento dos primeiros periódicos do estado, já no século dezenove. O pioneiro é o ‘Compilador Mineiro’, de 1823. A ele se seguem o ‘Abelha do Itaculumy’, de 1824, e o ‘Universal’, de 1825, dirigido por Bernardo Pereira de Vasconcelos. O primeiro jornal literário de Minas surge em 1843: o ‘Atheneo Popular’. Também dedicado à literatura, na sequência aparece o ‘Recreador Mineiro’, em 1845. O ‘Cysne’, igualmente voltado para as Letras, vem em 1895, dirigido por Arthur Bernardes, que chegaria à Presidência da República. Na fundação de Belo Horizonte, em 1897, registro momento de efervescência, talvez por conta do entusiasmo pelo advento da república e pela inauguração da capital, tida como a primeira cidade planejada do país. Seus jornais pioneiros são o ‘Bello Horizonte’, ‘A Capital’, ‘Tiradentes’ e ‘Bohemio’. Seu primeiro jornal literário é ‘Aurora’. Já no século vinte, é indispensável a referência ao lendário ‘Binômio’, impresso entre 1952 e 1964, graças à tenacidade de José Maria Rabelo e Euro Arantes, seus criadores, que o transformaram num verdadeiro ícone da imprensa combativa e independente. Em 1966, pelo gênio de Murilo Rubião, vem à luz o ‘Suplemento Literário’, até hoje em plena atividade, circulando nacionalmente, imbuído, como sempre, da nobre e difícil missão de divulgar o melhor da produção literária brasileira. Por sua equipe passaram nomes fundamentais da cultura nacional, como Rui Mourão, Luis Vilela, Sérgio Sant’Anna, Marcio Sampaio, Humberto Werneck e Ângelo Oswaldo de Araujo Santos, este, o paradigma do intelectual completo.

A viagem continua. Cruzo as fronteiras. Percorro a história do país. Na sessão em que se deve reverenciar a missão do Pen Clube, rendo homenagens àqueles que personificaram os seus ideais, muito antes de sua fundação. Incontornável é o nome de Hipólito José da Costa, considerado o patrono da imprensa brasileira. Nascido em 1774, editou, entre 1808 e 1823, o ‘Correio Braziliense’ ou ‘Armazém Literário’, considerado o primeiro jornal brasileiro. Em suas páginas, defendia ideias liberais, entre as quais a emancipação colonial.

Inevitável, também, é a menção a Cipriano Barata. Nascido na Bahia, em 1762, participou da Conjuração Baiana, em 1798, e da Revolução Pernambucana, em 1817. Em  1823, fundou o seu primeiro veículo de comunicação: ‘O Sentinela da Liberdade da Guarita de Pernambuco’.

Detido em várias oportunidades por desafiar o poder, sempre que mudava de prisão, publicava um novo jornal. Criou o jornalismo do cárcere. O ‘Sentinela da Liberdade’, que por tantas vezes teve suas edições interrompidas, mudava de nome de acordo com o lugar em que Barata estava preso. Também se chamou “Sentinela da Liberdade na Guarda do Quartel General” e  “Sentinela da Liberdade na Guarita de Villegaignon”.

 

Reproduzo um trecho do pensamento de Cipriano Barata sobre a Liberdade de Expressão.

Abro aspas.

Toda e qualquer sociedade onde houver imprensa livre está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alegria, segurança e fortuna; se, pelo fato contrário, aquela sociedade ou povo  tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, é povo escravo que pouco a pouco há de ser desgraçado, até se reduzir ao mais brutal cativeiro“.

Fecho aspas.

Merece menção igualmente especial Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, conhecido pela alcunha de Frei Caneca, nascido no Recife em 20 de agosto de 1779, e fundador, em 1823, do destemido periódico ‘O Tifis Pernambucano’, bravo defensor das causas brasileiras.

Já José do Patrocínio, nascido em Campos dos Goytacazes em 9 de outubro de 1853, iniciou sua atuação na imprensa com apenas vinte e dois anos, publicando o quinzenário satírico ‘Os Ferrões’. Em 1877, tornou-se redator da ‘Gazeta de Notícias’, em cujas páginas deflagraria, dois anos mais tarde, a campanha pela abolição da escravatura no Brasil. Em 1881, comprou a ‘Gazeta da Cidade’ e, em 87, fundou e dirigiu o jornal ‘A cidade do Rio’, quando intensificou sua militância abolicionista.

Encerro as citações às figuras referenciais da liberdade de expressão no país detendo-me naquele que foi seu símbolo máximo, no século vinte: o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, segundo presidente do Pen Clube do Brasil, nascido no Recife em 22 de janeiro de 1897, há cento e vinte anos, efeméride que enseja a devida celebração. Superficial exame de sua biografia permite concluir que ela traduz, como poucas, a missão a que o Pen sempre se propôs. Formado em Direito, o doutor Barbosa, como muitos o chamavam, exerceu diversas funções públicas, indo de deputado federal a governador do seu estado. Integrou a Academia Brasileira de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Associação Brasileira de Imprensa, que presidiu por longo período. Foi em décadas de militância jornalística, no entanto, que manifestou, com destemor, a sua veemente posição em favor da liberdade de expressão, de crítica e contra a censura de qualquer natureza. Dizia Barbosa Lima Sobrinho.

Abro aspas.

“A liberdade de imprensa é direito dos povos. Não é privilégio dos  jornalistas. É privilégio dos povos livres. Tal liberdade deve servir de veículo à liberdade de pensamento, que é quando se esposam teses opostas e se combate o fanatismo”.

Fecho aspas.

Num tempo em que sobre o globo se abate uma triste e perigosa onda de intolerância, preconceito e radicalismo, nada mais atual e necessário que relembrar essa lição sábia e útil do doutor Barbosa.

Conheci-o quando ainda era estudante de Comunicação Social na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. No último ano do curso, resolvi entrevistá-lo para o ‘Marco’, o jornal laboratório da faculdade. Entusiasmado, telefonei para a sede da ABI, na esperança de marcar, o mais rápido possível, um horário na agenda do decano da imprensa brasileira, naquela época com noventa e nove anos. Durante meses, incomodei dona Eurídice, sua amável secretária, que, finalmente, vencida pelo cansaço, reservou quarenta minutos da manhã de um sábado para que eu conversasse com o presidente. À hora marcada, ansioso, bati a campainha de sua residência, localizada à Rua Assunção, em Botafogo. Recebido por Raimundo, o caseiro, e pelo pastor alemão Dick, fui levado até a incrível biblioteca do entrevistado. Conversamos bem mais que o tempo previsto. Firme e sereno, o doutor Barbosa abordou todos os assuntos propostos pela pauta, reiterando, em cada resposta, sua crença fundamental no Brasil e em seu povo, para o qual sempre desejou um futuro de soberania política e autonomia econômica. Abrigado sob sua luz fulgurante, despedi-me do mestre com renovada crença no potencial da palavra e no seu poder de encantar o mundo.

Quando estudei a história do Pen Clube, entendi perfeitamente por que Barbosa Lima Sobrinho foi um de seus primeiros integrantes, no Brasil.

Sob o impacto da Primeira Guerra Mundial, terminada em 1918, a escritora inglesa Catherine Amy Dawson-Scott decidiu tomar uma iniciativa em favor do entendimento e da amizade entre os povos, superando as divisões de qualquer natureza. Em correspondência à filha Marjorie, datada de 29 de julho de 1921, ela se referiu a esse projeto pela primeira vez. Na carta seguinte, postada seis dias depois, apareceu a abreviatura que se tornou célebre e consagrou a união entre Poetas, Ensaístas e Narradores. O evento inaugural, a que compareceram vinte e cinco homens e dezoito mulheres, ocorreu no dia 5 de outubro, no restaurante Florence, em Picadilly Circus, na região central de Londres. Na formação inicial, estiveram, entre outros, Joseph Conrad, George Bernard Shaw e John Galsworthy, o Nobel de Literatura que se tornou o primeiro presidente do Pen Internacional. Foi ele quem se referiu à entidade como um movimento literário  global, apto a servir como a ‘Liga das Nações das mulheres e homens de Letras’. Em pouco tempo, o Pen ultrapassou as fronteiras britânicas e conquistou adesões em toda parte. Em apenas quatro anos, já eram vinte e cinco as representações do clube na Europa e vários os centros na America do Sul.

Realizado em 1923, na capital inglesa, o primeiro congresso internacional do Pen contou com a participação de representantes de onze unidades do clube, entre as quais as de países como França, Itália, Bélgica, Noruega, Dinamarca, Suécia, Espanha, Romênia e Estados Unidos. Visionário, o grupo projetou uma instituição que se bateria pela paz mundial, acima de todas as divergências. Em 1926, no congresso de Berlim, o presidente Galsworthy apresentou os conceitos básicos que moldariam a futura carta constitutiva do Pen: a literatura como moeda comum entre as nações, a despeito das circunstâncias; as obras de arte como patrimônio da humanidade; o respeito mútuo entre as nações. Posteriormente, outros pontos foram agregados ao núcleo original, como a necessidade de dissipar os ódios étnicos, nacionalistas e de classe, a defesa da ampla transmissão do pensamento, da imprensa livre e da faculdade plena de critica, a oposição à censura, a promoção da diversidade lingüística, dos direitos dos escritores – sobretudo das mulheres escritoras – e de sua integridade física, com o conseqüente repúdio à perseguição e ao encarceramento de que freqüentemente são vítimas. Por conta disso, em vários cantos, o Pen Clube se tornou o refúgio e o porto seguro de um sem número de autores malquistos pelos poderosos em seus países de origem.

Das mais antigas organizações não governamentais do mundo, o Pen foi a primeira instituição mundial de escritores. Reconhecido como órgão consultivo da UNESCO, tem o seu programa de ação multiplicado por meio dos cento e quarenta e cinco centros espalhados pelos quatro continentes.

No Brasil, o Pen Clube chegou em 1936, conduzido pelo carisma e a capacidade de ação do dramaturgo Cláudio de Souza, seu maior benfeitor, recebendo, de imediato, a filiação de expressivos representantes da intelectualidade pátria. Além de presidi-lo e de a ele devotar o melhor de seus esforços, Cláudio doou ao Pen vultosos recursos materiais, que permitiram o seu funcionamento por anos a fio. Seguido, na presidência da entidade, por nomes do quilate de Barbosa Lima Sobrinho, Celso Kelly, Elmano Cardim, Marcos Almir Madeira, Maria Beltrão, Geraldo Holanda Cavalcanti, Cláudio Murilo Leal e Cláudio Aguiar, o autor de ‘Flores de Sombra’ inseriu definitivamente a entidade no panorama da cultura brasileira, merecendo, para sempre, a gratidão e a lembrança afetuosa dos associados ao clube.

Senhor de ricas tradições, às quais me curvo, e de belíssima trajetória, honrada, altiva e ativa, o Pen Clube desfruta, hoje, do benefício de ser liderado pelo dinamismo e a eficiência de Cláudio Aguiar. Cearense, pernambucano e carioca, dramaturgo, ensaísta e romancista, biógrafo de escol, Cláudio é intelectual atento e solidário à saga do povo brasileiro, em particular, e ao interminável drama do ser humano sobre o planeta. De trato elegante e cordial, o fidalgo de Olinda é o responsável principal por sustentar, ao lado de Célia, o ambiente propício à interlocução inteligente, crítica e reflexiva que a entidade oferece aos seus associados, entre os quais destaco os nomes de Helena Ferreira e Eduardo Portella, que nos deixaram recentemente, e aos quais presto a devida homenagem.

Comovido pela generosidade com que fui acolhido por um colegiado tão qualificado, agradeço a deferência com que sempre fui tratado, e o privilegio da convivência, suave e fraterna, movida pelo amor à Literatura e à Liberdade de Expressão.

Chego ao Pen Clube com o coração de aprendiz. Venho de Minas Gerais trazendo, no peito, o Rio de Janeiro que mora em mim. Ele povoa o meu imaginário desde a infância, quando aqui estive pela primeira vez, para conhecer o mar. Águas doces e salgadas correm, juntas, pelas minhas veias, irrigando o sangue montanhês, a um só tempo lírico e inconfidente, manso e rebelde. Se na garganta inunda-me a sede de liberdade, emblema da bandeira branca e vermelha, na mente – e no corpo – há fome de saber. Na ilusão de um dia saciar-me, vou em frente, recompensado, sobretudo, pelo tesouro mais reluzente encontrado no caminho, o que realmente importa e vale a pena: os amigos. De mãos dadas com eles, amparado pelo sorriso macio e pela voz generosa, aquecido pelo abraço, ganho alento. E sigo adiante.

Muito obrigado!