Berço de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, e terra natal dos mais importantes críticos brasileiros, como Affonso Romano de Sant’Anna e Silviano Santiago, Minas sempre teve relação especial com a Literatura, expressão cultural potente o bastante para formar mentes e corações. Esse espaço precisa ser preservado, mesmo nesses tempos tumultuados, em que o cálculo utilitário prevalece até nas horas cruciais, como aquelas em que se definem o horizonte e o destino das novas gerações. Ainda que tenha motivos para apreensão, prefiro cultivar a esperança. Nem tudo está perdido. Trago hoje dois exemplos de resistência contra o mundo desencantado, sem a magia do livro.

O primeiro: com persistência e talento, Afonso Borges pôs de pé o “Sempre um Papo”, que existe há mais de trinta anos, prestando valioso serviço à cidadania. Apaixonado defensor da causa literária, ele incluiu Belo Horizonte na rota nacional dos grandes lançamentos editoriais, tratando a capital mineira com o respeito que merece, como importante centro de reflexão e debate sobre a Literatura produzida no país.

O segundo: o projeto “Divinas Conversas”, da Fundação Torino, criado em 2016 sob inspiração da professora Márcia Naves. Nele, a escritora Marina Colasanti falou sobre como cresceu fascinada pelos livros, sobretudo os da biblioteca do avô, de quem se recordou com saudade. Autora de extensa obra, ela compartilhou com os espectadores o seu prazer pela leitura e os impactos dele sobre a sua vida. Na segunda edição, Geraldo Carneiro, mineiro de Belo Horizonte, membro da Academia Brasileira de Letras, relembrou sua larga experiência como tradutor de Shakespeare e como poeta, roteirista e dramaturgo. No terceiro encontro, Antônio Prata, um dos melhores cronistas brasileiros, descreveu seu processo criativo e ainda contou histórias deliciosas, cativando os presentes. O sucesso junto à comunidade de pais, alunos e amigos da escola foi tanto que já é possível dizer que o programa integra, com destaque, a agenda cultural de Belo Horizonte, proporcionando à cidade um momento privilegiado de promoção da Literatura.

Também chama atenção o modo como as professoras da Fundação trabalham, em sala de aula, os textos produzidos pelos escritores convidados. No dia da conferência, um grupo de quinze a vinte estudantes se apresenta, interpretando trechos significativos da obra do palestrante, antes da sua fala. A literatura ganha emoção e movimento, incorporando-se, de modo lúdico e suave, à experiência de vida dos jovens. Na platéia, ao meu lado, a professora Márcia Marques de Morais, da PUC Minas, repara na alegria com que a turma desempenha tal tarefa. Num tempo em que as más notícias ganham o poder de nublar o otimismo, nada melhor que voltar os olhos para iniciativas dessa natureza, para reconquistar a expectativa de dias melhores.