Aproxima-se a hora de dormir. Carlos já tomou o seu lanchinho da noite e escovou os dentes. O ritual de encerramento do dia, no entanto, ainda não terminou. Animado, pede que lhe conte algumas histórias. Gosto da tarefa. Ela o ajuda a adormecer e inspira bons sonhos. Ao som da voz do pai, meu filho se despedirá das aventuras da manhã e da tarde de modo suave, ingressando num universo intermediário entre a vigília e o sono, habitado por tramas e personagens envolventes, vivendo no tempo e no espaço engendrados pelos seus criadores. Com cuidado, ele escolhe alguns livros em sua estante e segue, ao meu lado, para o quarto. Atento, acompanha a leitura que faço dos textos, sempre de olho nas ilustrações.

Nos contos clássicos, produtos da cultura de vários povos, parte do imaginário coletivo, os mais profundos sentimentos da alma humana afloram no embate entre heróis e vilões, cinderelas e madrastas. Na tradição da literatura infantil brasileira, a riqueza do folclore e da natureza realça a beleza do país e de sua gente. Na produção contemporânea, os temas relacionados à igualdade, à justiça, aos direitos humanos e ao meio ambiente auxiliam no desenvolvimento de valores éticos fundamentais à formação dos pequenos. Impressiono-me com a quantidade de bons autores e com os enredos engenhosos que são capazes de criar. Com gratidão, louvo o trabalho de Alaíde Lisboa, Ana Maria Machado, Ruth Rocha e tantos outros que se dedicaram à difícil arte de escrever para crianças.

Nessa jornada noturna, não é raro que Carlos me peça para ler outras vezes histórias que conhece quase de cor. Gosta de confirmar o que ouviu antes. Aprende pela reiteração. E sente saudades. Quer, de novo, o contato com obras que, por razões misteriosas, falaram mais alto ao seu coração. Assim, vai construindo devagarzinho, no seu ritmo, uma relação de amor aos livros e ao conhecimento, uma vontade de saber mais, uma curiosidade saudável, além de um vocabulário mais rico e de uma maior capacidade de comunicação e expressão.

De uns tempos para cá, comecei a propor a Carlos um jogo que tem lhe agradado bastante: que tal inventarmos, nós mesmos, as histórias que queremos ouvir? A brincadeira é simples e divertida. Eu falo um pouco, ele continua de onde parei, dando asas à sua imaginação. Retomo a narrativa num ponto adiante. Lá na frente, ele reassume o leme. Os acontecimentos se sucedem, muitas vezes, de um jeito surpreendente e, quase sempre, engraçadíssimo. Pensando bem… O que fica de tudo isso é a certeza de que a nossa história, no final das contas, é a gente mesmo que escreve. Assumir plenamente as rédeas da própria vida, no entanto, não é fácil. Exige prática, garra, disciplina e um imenso amor por si mesmo. Mas vale a pena. Talvez seja o melhor legado que se possa deixar. É essa a aposta que faço, quando vejo o meu filho já de olhos fechados, debaixo dos lençóis, quietinho, como o anjo que pousou na minha casa, há cinco anos.