Há pouco tempo levei Carlos ao Parque Guanabara, na Pampulha. Meu filho se divertiu bastante nos mesmos brinquedos que faziam a minha alegria, há quarenta anos. Para meu alívio, comprovei que a roda gigante, o carrinho bate-bate e o trem fantasma continuam eficientes na tarefa de entreter as crianças de hoje. Ainda bem. Será muito triste o dia em que as coisas simples e fáceis perderem a graça. Não quero estar aqui para testemunhar. Por que razão é preciso desprezar ou esquecer os encantos do mundo analógico, como é tão comum atualmente?

Deixo claro: não tenho nada contra as tecnologias digitais. Acredito mesmo que elas podem desenvolver, com eficiência, várias habilidades importantes nas meninas e nos meninos do século vinte e um. Mas delegar a elas o papel de preencher integralmente o tempo livre dos pequenos  é algo que não me convence de forma nenhuma. Até nos momentos em que a prioridade deveria ser a convivência familiar, hoje tão rara, é cada vez mais comum encontrar os pobrezinhos reféns do smart phone ou do tablet, solitários, alheios a tudo o que acontece à sua volta, movendo apenas as pontas dos dedos, a cabeça baixa, a coluna encurvada, o olhar perdido na tela. Quem nunca viu, num restaurante, o pai, a mãe, o filho e a filha completamente mudos em torno da mesa, sem trocar uma palavra, absolutamente absorvidos pelo poder de seus sofisticados aparelhos?

Não desfrutei do privilégio que meus pais tiveram, na infância vivida no interior de Minas. Nasci em apartamento, já na capital. Nunca morei em casa. Foram poucas as vezes em que brinquei na rua. Isso acontecia quando visitava alguns primos ou passava férias em cidades menores. Mesmo assim, considero que tive sorte. No prédio em que cresci, moravam cerca de quinze crianças. Formávamos uma turma. Nas férias, era comum passarmos mais de oito horas juntos, ocupados em brincadeiras como ‘polícia e ladrão’, ‘rouba bandeira’, ‘parte queijo’ e ‘queimada’. Andávamos de bicicleta, de patins, de skate. Quase tudo o que fazíamos envolvia muita ação, o corpo sempre chegava cansado ao fim do dia agitado. Para encerrar o expediente, era só tomar banho, comer, ouvir uma história e dormir. Insônia e ansiedade eram palavras pouquíssimo empregadas. A memória é de um tempo feliz. O que pode ser mais gostoso que a meninice vivida entre amigos, ao ar livre, animada pelo movimento?

Não se trata de lutar contra o progresso. Ele é bem vindo e desafia as mentalidades, propõe novas questões, faz perguntas imprevistas, surpreende o estabelecido, incomoda. Apresentarei a Carlos e a Gabriela todas as engenhocas que julgar interessantes, ou que puderem ajudá-los a conhecer o mundo. Mas de uma coisa tenho certeza: haverá sempre espaço para o divertimento em grupo, com outras crianças, para o boneco de madeira ou de pano, as cantigas de roda, a amarelinha, o pião, os jogos de adivinhação, a comunhão com a natureza.