Há poucos dias, para marcar os trinta anos da morte de Primo Levi, a Academia Mineira de Letras realizou sessão especial em sua homenagem. Na ocasião, a professora Lucíola Freitas de Macedo, sofisticada estudiosa de sua obra e autora do excelente “Primo Levi – a escrita do trauma” (Editora Subversos, 2014, 436 páginas) fez belíssima exposição sobre sua produção literária, evidenciando a atualidade e a importância do legado do escritor judeu italiano.

Primo Levi faleceu em 1987, em virtude de uma queda no vão da escada do edifício em que morava. Houve quem cogitasse a hipótese de suicídio, algo que nunca poderá ser confirmado. Mais que as circunstâncias de sua morte, no entanto, o que interessa é o que ele deixou para a posteridade. Sua obra prima, “É isto um homem?”, publicado em 1947 por uma pequena editora e reeditado em 58 pela poderosa Einaudi, é considerada o marco inaugural de uma nova fase da memorialística, antes dominada pelos relatos de vida dos escritores, dos filósofos, dos nobres e dos estadistas.

O livro em que conta a sua passagem pelo campo de concentração de Auschwitz traz o ponto de vista do  prisioneiro, da vítima, de quem perdeu o controle sobre o próprio destino, de quem foi objeto e alvo da história, de quem testemunhou o horror nazista e presenciou o nível mais baixo a que a espécie humana pode chegar. “É isto um homem?” é, ainda, sobre a trajetória de quem, apesar de tudo, sobreviveu, e ainda reuniu forças para narrar tudo o que passou nesses terríveis onze meses, num esforço para compreender acontecimentos que são, pela profundidade de sua violência, incompreensíveis. No poema do mesmo nome que abre o famoso texto de Levi, o autor exorta os leitores a não esquecerem o que aconteceu a milhares de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial. Os versos tem um tom de apelo e de intimação: “Pensem que isto aconteceu: eu lhes mando estas palavras. Gravem-nas em seus corações, estando em casa, andando na rua, ao deitar, ao levantar; repitam-nas a seus filhos”.

Muitos poderão dizer que a guerra acabou em 45. Já faz muito tempo… Depois disso a humanidade evoluiu bastante, fundou um amplo Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos, celebrou tratados contra o racismo e as discriminações, em defesa da diversidade cultural, etc. Isso é verdade e tem um motivo: parece paradoxal, mas o temor da reprodução do holocausto acabou levando a sociedade global a produzir uma série de anticorpos. Os sinais de alerta, entretanto, devem prosseguir ligados. Infelizmente. A  voz do escritor de Torino precisa continuar ecoando com força no século vinte e um, quando vários grupos, em diferentes partes do planeta, ainda insistem na intolerância e no ódio como padrões de relacionamento entre os povos. Por todas essas razões, a leitura (ou a releitura) dos livros de Primo Levi é urgente. Fundamental.