Lançado em 1991 pela Editora Siciliano, ‘Hilda Furacão’ se transformou em série de tevê protagonizada por Ana Paula Arósio, e divulgou para o país inteiro a história que Roberto Drummond ambientou em Belo Horizonte. Assim como ele, ao longo das últimas décadas, muitos autores escreveram sobre a cidade, ajudando a projetá-la no cenário nacional. Beagá está nas memórias de Pedro Nava, na poesia de Carlos Drummond de Andrade e de Henriqueta Lisboa. O primeiro romance de Cyro dos Anjos, o célebre ‘O Amanuense Belmiro’, lançado em 1937, também se passa na capital. A Rua Erê ficou famosa no Brasil todo, como o endereço do personagem-narrador.

É, porém, da autoria de Avelino Fóscolo o primeiro romance que escolheu Belo Horizonte para cenário: ‘A Capital’, publicado em 1903, apenas cinco anos depois da fundação da cidade. O livro conta a história da transformação do Arraial de Curral Del Rey em sede do poder político estadual e é considerado, hoje, marco importante da literatura produzida entre nós. Nascido em Sabará em 1864, Fóscolo ainda produziu outros romances (‘A Mulher’, ‘O Caboclo’, ‘O Mestiço’, ‘No Circo’ e  ‘Vulcões’), peças de teatro e inúmeros artigos de jornal. Foi um dos fundadores da Academia Mineira de Letras, onde ocupou a cadeira de número sete, para a qual escolheu como patrono um dos melhores amigos de sua juventude, o jornalista e escritor Luiz Cassiano Martins Pereira. Seu sucessor foi o professor Eduardo Frieiro. Falecido aos oitenta anos, Fóscolo legou obra pouco conhecida e injustamente esquecida. Para saber mais sobre ele,  é útil consultar o livro da professora Letícia Malard: ‘Hoje tem espetáculo – Avelino Fóscolo e seu romance’ (Editora UFMG, 1987, 223 páginas). Regina Horta Duarte também realizou estudo importante a respeito: ‘A Imagem Rebelde – a trajetória libertária de Avelino Fóscolo’ (Editora Unicamp, 1991, 134 páginas).

Nascido de mãe solteira, que morreu quando ele ainda era criança, foi morar na casa de um tutor que não o tratava bem. Resolveu fugir. Empregou-se na Mina de Morro Velho, onde era chamado de ‘branquinho’. Foi quando conheceu as duras condições impostas ao trabalhadores. Atraído pela magia do circo, seguiu um grupo mambembe que se apresentou onde morava. Com os artistas, muitos dos quais estrangeiros, aprendeu a falar outros idiomas e entrou em contato com idéias novas, que abriram a sua cabeça.

Na mocidade, Fóscolo militou em favor da abolição da escravatura e da proclamação da República. Entusiasmou-se quando ela chegou, em 1889, certo de que a mudança representaria algum avanço em favor da justiça social, causa que muito o mobilizava. Decepcionou-se rapidamente, quando percebeu que os poderosos da Monarquia continuavam fortes. Leitor voraz, interessou-se pelo Anarquismo, que nele encontrou um divulgador ativo e apaixonado. Intelectual inquieto, sonhou com dias melhores para a humanidade, lutando por uma sociedade mais fraterna e solidária. Deixou belo legado.