23 de junho de 2017

Rogério Faria Tavares

 

Boa tarde a todos. Cumprimento com entusiasmo o distinto público, que me honra com a sua presença, e os componentes da mesa.

 

Saúdo a presidente emérita da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, querida confreira Elizabeth Rennó, que gentilmente nos acolhe no Auditório Vivaldi Moreira, da Academia Mineira de Letras, por ela liderada com serenidade e firmeza. Presidente: muito obrigado, também, pelo carinho e pela generosidade com que me tratou em seu discurso;

 

o presidente da Amulmig, fraterno amigo Cesar Vanucci,

 

e Bernardo Sabino, filho do escritor Fernando Sabino, patrono de minha cadeira na entidade que passo a integrar, a partir de hoje, empolgado pela missão de representar o município em que tive a alegria de nascer, no já distante mês de abril de 1971.

 

Fundada no alvorecer da República, Belo Horizonte enfrentou o desafio de suceder a Ouro Preto como sede do Poder Político e Administrativo do Estado. Sob a inspiração da Comissão Construtora chefiada por Aarão Reis, nasceu de projeto ousado, como convinha à geração encarregada de fazer a passagem do século dezenove para o vinte. Catalisadora de novos movimentos culturais, desde cedo a antiga Cidade de Minas manifestou seu amor pela literatura. Em 1903, apenas cinco anos após a festa de sua inauguração, Avelino Fóscolo publicou A Capital, o primeiro romance ambientado na cidade. Considerado o seu romancista pioneiro, Fóscolo nasceu em Sabará, em 1864, e faleceu em Beagá, aos oitenta anos. É o fundador da cadeira de numero sete da Casa de Alphonsus de Guimaraens, atualmente ocupada pelo jurista Ricardo Arnaldo Malheiros Fiúza. O mais antigo cronista do município foi Alfredo Camarate, nascido em Lisboa, em 1840, e falecido aos sessenta e quatro anos. Integrante da equipe técnica incumbida de projetar Belo Horizonte,  foi também jornalista e crítico musical. Seu legado literário foi bem documentado por Eduardo Frieiro em seu importante estudo ‘Alfredo Camarate e a nova capital mineira’, incluído na revista Kriterion, em edição que veio à lume em 1965, e por Abílio Barreto, que dele não se esqueceu na sua obra clássica Belo Horizonte, Memória Histórica e Descritiva. Já em 1893, Camarate começou a publicar textos variados no Minas Gerais, surgido um ano antes. Mas foi em 1894 que ele se dedicou a escrever, para o mesmo órgão de imprensa, as famosas crônicas sobre o processo de transformação do Arraial de Curral Del Rey na capital do estado. A série ganhou o nome de Por montes e vales e constitui, hoje, coleção imprescindível para quem deseja estudar a gênese da crônica belo horizontina.

 

Se coube aos precursores Fóscolo e Camarate desbravar, com destemor, as trilhas da literatura em Belo Horizonte, os que vieram mais tarde, ao longo da primeiras décadas do século vinte, foram fundamentais para pavimentar as  largas avenidas por onde até hoje circulam nossas mulheres e homens de letras. Carlos Drummond de Andrade veio de Itabira em 1919. Pedro Nava chegou de Juiz de Fora dois anos depois. Cyro dos Anjos deixou Montes Claros em 23. A publicação de sua obra prima, O Amanuense Belmiro, em 37, inseriu definitivamente a cidade no panorama da ficção nacional. Primeiro sucessor de Albino Esteves na cadeira de numero um da Academia Mineira de Letras, o escritor do norte de Minas tornou a geografia de Belo Horizonte popular em todo o país, com destaque especial para a Rua Erê, endereço da residência do personagem-narrador. A Cyro, Drummond e Nava se juntaram Abgar Renault, Emílio Moura e Aníbal Machado, entre outros. Mesmo que depois tenham se dedicado prioritariamente à Política, Milton Campos e Gustavo Capanema também participaram ativamente da vida literária da capital nos anos vinte. A esse tempo regressou Pedro Nava em Beira Mar, livro publicado em 1978, quando descreveu a cidade que ficou na memória da sua juventude:

 

“Belo Horizonte, que lindo nome! Fiquei a repeti-lo e a enroscar-me na sua sonoridade. Continha fáceis ascensões e aladas evasões. Sugeria associações cheias de nobreza na riqueza das homofonias. Era bom de repetir e ir despojando aos poucos a palavra: das arestas de suas consoantes e ir deixando apenas suas vogais ondularem molemente”.

É também das lembranças da Belo Horizonte de sua mocidade que está povoado Boitempo, de Drummond, reunião de poemas de caráter memorialístico publicados inicialmente em três volumes a partir de 1968. Versam sobre a cidade textos que se tornaram célebres, como ‘Parque Municipal’, ‘Livraria Alves’, ‘Dormir na Floresta’, ‘Doidinhos’, ‘O Grande filme’, ‘O fim das coisas’, ‘Depravação de gosto’, ‘Jornal falado no Salão Vivacqua’, ‘A tentação de comprar’, ‘Encontro’ e ‘Confeitaria Suíça’.

 

Outro nome fundamental da literatura produzida em Belo Horizonte na primeira metade do século vinte é o de Eduardo Frieiro, aqui já referido. Em O Novo Diário, o primeiro sucessor de Avelino Fóscolo na cadeira de numero sete da Academia Mineira de Letras anotou os acontecimentos marcantes da vida da capital entre 1942 e 1949. Além desse importante registro, Frieiro também ambientou três de seus romances na cidade: O Clube dos Grafômanos, de 1927, Basileu, publicado pela primeira vez em 1930 sob o título Inquietude e Melancolia e O Cabo das Tormentas, de 1936.

 

Indispensável é a menção a Henriqueta Lisboa, primeira mulher a entrar para a Academia Mineira de Letras, em 1963. A mineira de Lambari começou na literatura em 1925, com Fogo Fátuo, vindo a publicar, ao longo da vida, vinte livros de Poesia, o último no ano de seu falecimento, em 85. Cabe destacar, de sua obra, Belo Horizonte bem querer, de 72, de que seleciono trechos do poema que dá título ao livro:

 

“Uma cidade se levanta
do solo às nuvens. De atalhos parte para avenidas.
Do caos se amolda à geometria: triângulos quadriláteros círculos.
Uma cidade sobe dos prados
para o lombo das serras.
Destrói choupanas e constrói
Arranha-céus.
. . .

Cresce pelas mãos dos operários
canta pelo timbre dos poetas
define-se no porte dos guias
espairece no afã dos atletas
explode na estridência das maquinas.
A expressão de uma cidade é múltipla.
A beleza de uma cidade é instável.
Sua grandeza é limitada
à fronteira mesma das cousas.
Uma cidade se assemelha às outras
porém se a amamos é única:
tem a forma de um coração
traz nosso aroma predileto
é a paina do travesseiro
em que repousa nossa fronte.
Belo Horizonte bem querer”

 

Na década de quarenta e nos anos iniciais da década de cinqüenta, Belo Horizonte testemunhou o surgimento e a evolução de outro grupo representativo de sua literatura. Em 41, o meu patrono, Fernando Sabino, publicou seu primeiro livro, Os Grilos não cantam mais; seis anos depois, Murilo Rubião deu a conhecer O ex-mágico. Em 51, já no Rio de Janeiro, Paulo Mendes Campos lançou A palavra escrita. No ano seguinte, Oto Lara Resende editou O lado humano, coletânea de contos. Quatro anos depois, apareceu a obra prima de Sabino, O Encontro Marcado, que de novo posicionou Belo Horizonte em lugar de destaque na ficção brasileira, rememorando os anos de sua formação.

 

Se houvesse tempo, ainda seria bom comentar, em detalhes, outras obras que igualmente realçaram a capital mineira aos olhos dos leitores de todo o país, como Curral dos Crucificados, escrito em 71 por Rui Mourão, quinto sucessor de Machado Sobrinho na cadeira de numero cinco da Academia Mineira de Letras, e Hilda Furacão, do saudoso Roberto Drummond, publicado em 1991. Nesse ano, também veio a lume O Altar das Montanhas de Minas, de Jaime Prado Gouveia, atualmente o diretor de redação do emblemático Suplemento Literário, fundado por Murilo Rubião em 1966 para logo transformar-se em celeiro de talentos luminosos como os de Luis Vilela, Sérgio Santanna, Márcio Sampaio e Angelo Oswaldo de Araujo Santos.

 

É de Fernando Tavares Sabino, porém, que passo a ocupar-me agora, exclusivamente. Escolhi-o como patrono pela extensão e pela excelência de sua obra; pelo caráter múltiplo de sua atuação cultural, onde também coube o documentarista cinematográfico, o editor de livros e o baterista, sem esquecer, é claro, do atleta do Minas Tenis Clube. Mas escolhi-o, sobretudo, em razão da coragem e da determinação com que assumiu a sua vocação literária, manifestada desde cedo. Aos treze anos, publicou seu primeiro trabalho: uma história policial de sua autoria estampou as páginas da revista Argus, da polícia mineira. Vale registrar, ainda, seu pleno domínio sobre a linguagem e sua impressionante capacidade de comunicar-se com o grande público. Com livros presentes numerosas vezes nas listas dos mais vendidos, comprovou que qualidade e sucesso comercial podem, sim, andar juntos.

 

Nascido em Belo Horizonte em 12 de outubro de 1923, fez o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena e o secundário no Ginásio Mineiro. Ainda menino, passou a escrever crônicas sobre rádio, com elas ganhando vários prêmios no concurso permanente da revista Carioca, do Rio de Janeiro. Ingressou na Faculdade de Direito em 1941, terminando o curso cinco anos depois, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Incentivado por Mário de Andrade, com quem manteve longa correspondência, não parou mais de escrever. Depois do primeiro livro, aqui já mencionado, publicou a novela A Marca, em 1944, ano em  que se mudou para o Rio. Dois anos depois partiu para Nova Iorque, de lá remetendo inúmeros textos para os jornais brasileiros. Residindo em Londres entre 64 e 66, foi sócio do amigo Rubem Braga em dois empreendimentos: a Editora do Autor e a Editora Sabiá. Entre seus livros mais famosos figuram O Homem Nu, de 1960; A mulher do vizinho, de 62; A companheira de viagem, de 65; A inglesa deslumbrada, de 67; Deixa o Alfredo falar!, de 76; O Grande Mentecapto, do mesmo ano; O Menino no Espelho, de 82; A faca de dois gumes, de 85; O Tabuleiro de Damas, de 88, além do  clássico O Encontro Marcado, antes citado.

 

Falecido no Rio de Janeiro em 11 de outubro de 2004, às vésperas de completar oitenta e um anos, Sabino marcou de modo indelével a história do conto, da crônica e do romance no Brasil, legando, ainda, em muitos de seus textos, uma história de amor a Belo Horizonte, terra de seu nascimento, sua infância e sua juventude.

 

Amado pelos amigos que soube tão bem cultivar, deles mereceu depoimentos afetuosos, dos quais tomo a liberdade, agora, de reproduzir pequenos trechos. Sobre Sabino escreveu Paulo Mendes Campos:

 

“Os olhos abertos  para o cotidiano iluminam a face diurna de Fernando Sabino. Passa por um brincalhão que se diverte à custa dos outros e que, à custa de si mesmo, diverte os outros. Trata-se de um Sabino! Um Kafka de eletricidade positiva, que acabou capitalizando essa fatalidade e transformou-se no mais hábil narrador de confissões em língua portuguesa. Sete instrumentos não bastam para ele”.

 

Da lavra de Otto Lara Resende é o texto abaixo:

 

“Fernando Sabino consagrou-se como escritor, capaz de criar o seu universo pessoal. Ao talento, juntou uma perícia de traços marcantes. Um desses traços é a agilidade – não apenas do estilo, mas da técnica de dizer e de contar, da sua montagem e construção. Na prosa de Fernando Sabino há um ritmo interior que pode chegar a ser vertiginoso. Seu humour tem a brevidade e a eficiência de  uma centelha. Fulgura e não  passa, num dinamismo incessante que está sempre a realimentar-se. Como ficcionista, Fernando Sabino tem bagagem de peso e qualidade. Tem tudo o que precisa para ser permanente”.

 

Finalmente, registro excerto da carta-poema enviada por Hélio Pelegrino a Sabino:

“E tu, Fernando, príncipe encantado surgindo entre lírios, pálido cavaleiro que se arrasta entre o blue e uma sinfonia desesperada, o incompreendido, o querido vulto mundano que arrebenta nos salões, como uma rosa de inverno, sufocada e pura ainda, apesar da sevícia. Teu sonho resplandece sempre, cavaleiro armado de prata, teu sorriso é uma fogueira, uma mensagem e um apelo. Da tua infância quieta tens a fronte pensativa e as mãos enormes, interrogativas e espalmadas. Os caminhos te legaram músculos longos e ligeiros, sabes nadar, medes a direção do vento e conheces os caminhos do mar”.

 

Senhoras e senhores,

 

Animado pela bela trajetória de meu patrono – que sempre amou a cultura e as artes – louvo, agora, o trabalho também apaixonado de todos aqueles que se dedicaram, ao longo de mais de cinquenta anos, a erguer e a manter a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Idealizada, em 1963, sob a proteção de São Francisco de Assis, ela continua fiel ao objetivo que motivou a sua fundação: agregar e divulgar as expressões literárias de todos os municípios do estado. Registro, com gratidão, os nomes de todos os que a presidiram: Alfredo Marques Vianna de Goes, Tasso Ramos de Carvalho, Jésus Trindade Barreto, Luiz Carlos Abritta, Elizabeth Rennó e Cesar Vanucci. Assim, cumprimento todos os acadêmicos, de cuja companhia posso desfrutar, a partir de hoje, com prazer e honra. Muito obrigado pelo acolhimento generoso que nessa casa recebi, desde o primeiro instante.

 

Concluo essas palavras renovando minha profissão de fé na literatura e no ofício do escritor. Ele cria mundos, surpreende, intriga, encanta, renova, abre horizontes inesperados, o que faz da vida uma experiência muito –mas muito melhor.

 

Muito obrigado.