“Quero ficar mais um metro de hora aqui”, respondeu Carlos, quando perguntei se estava gostando da visita à aldeia dos Pataxós, próxima à cidade de Carmésia, a três horas e meia da capital. Com os rostos pintados à moda da casa, meu filho e cerca de quinze coleguinhas entraram em contato com o modo de vida e os costumes dos índios mineiros, que nos receberam generosamente. Organizada por um entusiasmado grupo de pais e acompanhada pela professora e pela coordenadora pedagógica da escola, a viagem deu forma, cor e sabor ao aprendizado conduzido em sala de aula sobre os temas indígenas. Entre danças, brincadeiras, jogos e histórias, a turma mergulhou com alegria – e sem medo –  num riquíssimo universo cultural, uma das matrizes fundadoras do povo brasileiro. Em três dias, as crianças conheceram um jeito próprio de estar no mundo e de relacionar-se com o tempo e o espaço, em vários pontos bastante distinto do delas. Que bom! Nada melhor que confirmar a imensidão do planeta e a incrível diversidade humana de que é feita a sua paisagem. A população mundial já superou a marca dos sete bilhões. Como ainda é possível resistir ao encontro e à convivência respeitosa com mentalidades diferentes da nossa? Que lógica é capaz de alimentar atitudes preconceituosas e estereotipadas em pleno século vinte e um?

A cacique me contou que os homens  não se opuseram à escolha de seu nome para liderar a tribo, onde moram cerca de cento e vinte pessoas: “sempre ajudei a resolver os problemas da comunidade. Foi uma solução natural”. Também me explicou o interessante ritual do casamento, quando o noivo carrega nos ombros uma pedra de grandes dimensões, sem poder deixá-la cair: “assim, ele prova que consegue suportar o peso do matrimonio e que vai dar conta de sustentar a sua família”. É comum o jovem casal residir um ou dois anos na casa dos pais, até ser capaz de erguer sua moradia. As mulheres se tornam mães por volta dos quinze anos e geralmente têm numerosa prole. Os velhos gozam de imenso respeito e são fonte de sabedoria. Há um deus maior, que reina acima de todos, e os deuses da natureza, como o sol, a lua e o céu, por exemplo. Poesia pura.

Animadíssimo, o grupo de pais regressou a Belo Horizonte com o projeto de editar um livro para relatar a experiência e compartilhar com os leitores as impressionantes fotos tiradas no tempo que passou com os irmãos pataxós. As crianças voltaram  com saudades do que viram e dos amigos que fizeram. Carlos trouxe uma zarabatana e muito caso para contar. Alguns de seus companheirinhos vieram com arcos, flechas e o exuberante artesanato ofertado pelos índios. Sabrina foi presenteada com três belíssimos colares. Deixei a tribo mais leve e feliz, na esperança de que meu filho se transforme num adulto cosmopolita e tolerante, capaz de reconhecer o valor profundo de todas as pessoas que habitam a Terra.