24 DE JUNHO DE 2017.

Bom dia a todos. Saúdo o público presente, festejando a sua afeição pelo campo da Cultura e, em especial, pelo universo da História e da Geografia, fontes de sabedoria e lugares de reflexão e debate. Merece ainda particular menção o que nos une desde o início de nossa convivência: o vivo interesse por Minas e seu povo, em sua aventura pelo tempo e pelo espaço.

Cumprimento os integrantes da mesa.

A sessão dessa manhã confirma o alcance e a dimensão das atividades conduzidas no âmbito do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Ao longo de sua honrada trajetória, a Casa de João Pinheiro soube dialogar com a diversidade humana e material que caracteriza o estado, estendendo sua atuação a todos os cantos de seu território. Idealizada nos primeiros anos da nova capital, ainda no alvorecer da República, não se restringiu a instituição aos temas de Belo Horizonte. Atenta e sensível ao caráter múltiplo e fascinante da nacionalidade mineira, fez-se presente também no interior, em diálogo constante com os intelectuais residentes nos mais de oitocentos municípios que compõem a  nossa terra. Assim, a Casa de Herbert Sardinha, Marco Aurélio Baggio e Jorge Lasmar amplia e reitera a sua legitimidade, ocupando, de fato, o lugar que a visão arguta de seus fundadores projetou como o seu destino.

Hoje, especialmente, desfruto da oportunidade privilegiada de saudar o querido confrade Daniel Antunes Junior, por conta da bela colheita que realiza agora, com a publicação de seu novo livro, alegria que, generosamente, compartilha com seus amigos, nessa sessão. Se me concentrasse somente na obra ora lançada, já teria motivos de sobra para enaltecer seus méritos. Rápida leitura de seu conteúdo permite confirmar o rigor e a qualidade com que Daniel conta ao leitor, como ele mesmo anuncia na capa do volume, ‘um pouco de história’.

Desejo antes, no entanto, concentrar-me na exposição de importantes aspectos da biografia do autor. Daniel é síntese da complexidade e da riqueza genética que caracterizam a gente das Gerais. Nascido na atual Espinosa, o antigo Lençóis do Rio Verde, descende de Heitor, da estirpe dos Macabeus, que veio para o Brasil com a mulher, Ana Roiz, fugindo  da Inquisição, aqui fundando uma sinagoga e um engenho de cana de açúcar. Entre seus antepassados também estão os indígenas tapuias, entre os quais a aguerrida Luzia, mais tarde esposa de Joaquim Antunes de Souza, com quem gerou importante descendência, na qual se inclui o nome de Dom Lucio Antunes de Souza, o primeiro bispo de Botucatu, em São Paulo. O sangue português  e o italiano completam a composição da linhagem de que vem Daniel Antunes Junior.

Havendo cursado os estudos primários no Grupo Escolar Comendador Viana, em sua terra natal, fez o Secundário no Ginásio Afonso Celso e no Colégio Anchieta, em Belo Horizonte. Sua vida profissional é longa e retrata sua capacidade de atuar em várias frentes.

Seus vínculos com o Jornalismo incluem o curso prático ministrado pela Universidade Católica e pelo inesquecível O Diário Católico, criado por Dom Antônio dos Santos Cabral, periódico que marcou época na história da imprensa em Minas, revelando talentos como os de José Mendonça e João Etienne Arreguy Filho.

Em sua larga experiência como bancário, se inclui o vínculo com o Banco de Minas Gerais, formado em 1940, e passagens pelas agências de Montes Claros, Ponte Nova, Uberlândia e Belo Horizonte, inicialmente como escriturário e, mais tarde, como contador, gerente e diretor da Carteira de Crédito Imobiliário, função exercida até o ano de 1969. Na referida instituição, foi, ainda, Superintendente de Aplicações, até o ano de 74.

Empreendedor, Daniel  Antunes Junior também fundou e administrou a Mutual (Associação de Poupança e Empréstimo) e a BMG Crédito Imobiliário. Dirigiu a Construtora Predial e chefiou o Departamento de Operações Especiais das Empresas BMG, atuando, igualmente, como membro do Conselho Fiscal da BMG Corretora e da BMG Leasing de Equipamentos.

Sua intensa inserção no universo bancário e financeiro, entretanto, não lhe impediu de participar, com semelhante entusiasmo, da vida comunitária. Daniel Antunes Junior foi diretor da Associação Comercial de Ponte Nova e de Uberlândia e da Associação Comercial de Minas, em Belo Horizonte, sendo, ainda, Governador distrital do Lions Internacional.

No Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais Daniel ingressou, em 1984, a convite de Felipe Machado Cury, para ocupar a cadeira de numero quarenta e três, cujo patrono é Teófilo Otoni. Seu belo discurso de posse é preciosa e detalhada aula sobre o gigante do Serro, por ele qualificado como ministro do povo, advogado das liberdades públicas e grande paladino da democracia no Brasil. Jornalista, interessou-me especialmente conhecer um pouco mais sobre a importante atividade de Otoni como divulgador de ideias, o que o motivou a fundar o mítico Sentinela do Serro, publicação emblemática da história da imprensa no Brasil Império, cujo lema Daniel reproduz, em sua oração: “São direitos inalienáveis, imprescritíveis e sagrados, a liberdade, a segurança, a propriedade e a resistência à opressão”.

Desde a sua entrada, Daniel Antunes Junior tem participado ativamente da vida do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Suas contribuições para a revista da Casa de João Pinheiro são frequentes. Cito,  aqui, apenas alguns dos textos de Daniel por ela publicados: ‘A Família Soledade e a Tradição Oral’, em que investiga as origens desse núcleo humano radicado no norte de Minas; ‘Antecedentes da vinda de Dom João VI’, ‘Daniel Serapião de Carvalho’, em que traça o perfil do político de Itabira do Mato Dentro; ‘Espinosa – Crônica antiga de Lençóis do Rio Verde’, em que conta a historia de sua terra natal; ‘Os Caldeira Brant’, em que pesquisa a genealogia dessa importante família, além dos discursos de recepção a Nívia Nohmi, Geraldo Magela Gomes da Cruz e Luiz de Paula Ferreira. Em 2007, nas comemorações dos duzentos anos do nascimento de Teófilo Otoni, Daniel produziu outra peça oratória memorável, posteriormente também incluída na revista do Instituto.

Como se essa contribuição substantiva não bastasse, Daniel Antunes Junior presenteia agora o publico leitor com este A Colonização Brasileira e o Livro do Tombo da Casa do Conde da Ponte – um pouco de história, em boa hora editado com o honroso patrocínio do BDMG Cultural. A avaliação de Thiago Velozo Vitral, diretor do Arquivo Publico Mineiro, sobre a obra estimula ainda mais a sua leitura:

“Trata-se de uma fonte preciosíssima de informações sobre os assentamentos e a colonização da margem direita do Rio São Francisco. Os registros contidos no livro atestam a venda de glebas de terrenos pertencentes ao Conde da Ponte e mostram com riqueza de detalhes como era feita a administração dos prédios construídos no Sertão do Rio Pardo”.

Reproduzindo o original manuscrito do Livro do Tombo relativo ao Sertão do Rio Pardo, patrimônio da Biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, a obra com que agora somos todos presenteados também inclui a transcrição ipsis litteris, em letra de forma, do outro tomo do Livro do Tombo, este relativo aos Sítios do Distrito de Urubu. Esta foi possível graças a uma publicação de 1957, do Arquivo Público da Bahia, uma vez que o original, se existe, não foi localizado.

Uma das maiores virtudes da obra, porém, está na sua primeira parte.  É aí que o autor faz a abordagem histórica necessária para a compreensão do teor dos documentos inseridos no livro. Depois da devida homenagem ao jesuíta italiano André João Antonil e a Antonino da Silva Neves, qualificado como o máximo escritor da história e da geografia do norte de Minas, Daniel Antunes Junior empreende extenso e rigoroso percurso por aspectos fundamentais do Brasil Colônia e da história de sua região, até chegar ao Livro do Tombo. Enriquecida pelas notas finais, chamadas notas emergentes, a obra ainda traz três poemas de sua lavra: Espinosa, Lençóis do Rio Verde e O Retorno das Garças. Uma breve leitura das fontes por ele pesquisadas para levar a cabo o seu trabalho fornecem uma boa ideia do seu serio compromisso com a tarefa da investigação histórica, a maior homenagem que um sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais pode prestar à entidade.

Concluo essas breves palavras, queridos confrades, agradecendo a Daniel pelo tanto que aprendi com a leitura de seus textos e de seu livro. É um privilégio  conviver com o pesquisador primoroso que habita o ser humano cordial e afável que você é.

Muito obrigado.