Se desço a Contorno rumo à Savassi, passo em frente ao Loyola, prédio que ocupa todo o quarteirão entre as ruas Sinval de Sá e Eduardo Porto. Saudoso, comento com Carlos, que segue atento, no banco de trás: “Papai estudou nessa escola”. Pertencente à rede jesuíta, o colégio foi inaugurado em 1943, atendendo a pedido feito à congregação por Dom Antônio dos Santos Cabral, arcebispo de Belo Horizonte. A primeira sede funcionou em casa generosamente cedida por Francisco de Freitas Lobato, na Rua Gonçalves Dias, perto da Praça da Liberdade. No começo, eram apenas trinta e três alunos. Todos homens. As primeiras meninas chegaram somente em 67, vindas da Companhia de Maria. A mudança para a principal avenida da cidade se deu seis anos depois. Lá cheguei, com onze anos, para cursar o que se chamava, em 1982, de quinta série.

A memória reconstitui cenas que conservo aquecidas na mente, agora já consciente da importância que tiveram na formação da minha mentalidade. Nas aulas de Artes, Ana Maria realizava concurso de pipas na Praça do Papa. Nas de Ensino Religioso, Marta falava de Filosofia em linguagem adequada ao seu público. Longe de pregar a adesão a esta ou aquela crença, estimulava a reflexão, a critica e o debate em torno de temas profundos. Sandra, a professora de História, percorria a mesma trilha, levando a turma a interessar-se verdadeiramente por sua matéria, sem pedir as decorebas de nomes e datas tão comuns nesse campo.

Em 84, Zeca, a professora de Geografia, organizou seminário especial sobre o continente africano. Realizado no turno da noite, ofereceu aos jovens de treze anos um panorama complexo da situação política, econômica e social daquela parte do mundo. Em 86, já no primeiro ano do segundo grau, integrei-me ao Grêmio Estudantil, refundado no mesmo período em que o país voltava a ter um governo civil. O movimento secundarista ressurgia em todos os estados. Não foi diferente em Minas. Lembro-me das intensas atividades então empreendidas e da atuação conjunta com o Sindicato dos Professores em favor da Educação e de melhores condições de trabalho para os seus profissionais, algo que continua tão necessário como naquela época.

O terceiro ano, marcado pela preparação para o tão temido vestibular, foi de muito estudo e grande expectativa em relação ao futuro, acompanhada com atenção e carinho pelo corpo docente e pelos coordenadores, entre os quais o inesquecível Geraldo Honorato Michel. De novo, destaque para uma professora de História, desta vez Carla Ferretti, hoje chefe de departamento na PUC Minas. E para a de Ensino Religioso, Eliane Pimenta, que apresentou às meninas e aos meninos de dezessete anos a obra de Einstein, Marx, Freud e Marcuse, entre outros. “Não é possível que cheguem à Universidade sem conhecer esses autores”, dizia a mestra, num tempo em que a inteligência e o pensamento cosmopolita superavam a intolerância, o preconceito e a ignorância.