Num dia de agenda intensa, perguntei às mães de dois colegas de meu filho se podiam pegá-lo na saída da escola. Pedido aceito, elas seguiram com a turminha para um restaurante da cidade. Afetivas e acolhedoras, proporcionaram um belo jantar aos pequenos, não sem antes formular à Sabrina, pelo whatsapp, a indagação  fundamental: “Carlos come camarão?” Por uma razão qualquer, minha mulher não viu a mensagem imediatamente e um tempo razoável transcorreu até o momento em que ela conferiu a tela do celular. Alérgica a todos os frutos do mar, telefonou preocupada: “É que não posso nem sentir o cheiro. A reação é a pior possível. Minha glote já chegou até a fechar.  Meu receio é de que Carlos também tenha essa intolerância”. Do outro lado da linha, silêncio e tensão.

“Ele me disse que adora camarão. Falou que é seu prato predileto”, finalmente informou uma delas, tentando refazer-se do susto. “Quando vi a convicção com que ele afirmou isso, fiquei tranquila”. Os minutos seguintes foram de medo e apreensão. Mas passaram. Foi assim que soube que meu filho, de fato, não herdou a menor restrição ao crustáceo, prato que, desde então, passou a consumir normalmente. Curioso, não resisti e questionei: “Por que você disse que já tinha comido camarão?” Carlos me olhou sem entender direito as minhas palavras. “Eu já comi camarão em Djinga”, respondeu, mencionando o nome do lugar de onde costuma falar que veio e para onde sempre volta, durante o sono. É comum ouvi-lo descrever o que há nesse espaço fantástico, típico da imaginação infantil: “Em Djinga tem de tudo o que você pensar. A diferença é que quando lá é de dia, aqui já está escuro”, esclarece, didático, a quem se interessa por uma descrição mais detalhada.

Por mais incrível que pareça, foi de Djinga que também veio a irmã de Carlos. Ciente de suas expedições noturnas, pedi a ele, certa vez, que entregasse uma carta para a menininha que Sabrina e eu tanto desejávamos, caso se encontrasse com ela, em algum canto do seu planeta imaginário. No texto, dizíamos estar totalmente preparados para ver a família aumentar e que Gabriela já podia chegar.  A carta ficou debaixo do travesseiro de Carlos por várias semanas. A cada manhã, abordava meu filho e ele surgia com uma desculpa distinta: “Hoje não fui a Djinga”, “Passeei por lá mas não vi a Gabi.” Quase conformado, parei de provocá-lo a respeito.

Por um tempo, pensei até em escrever um livrinho sobre Djinga, em parceria com Carlos, naturalmente. Julguei que daria uma boa história, capaz de atrair as crianças e até os adultos, uma vez que sempre me via absolutamente seduzido pelo que meu filho narrava a respeito desse país maluco. Cheguei a pesquisar nomes de ilustradores e a avaliar a produção dos que mais me agradaram. A qual deles deveria conferir a importante tarefa de retratar Djinga?

Já havia me esquecido do tal envelope, quando meu filho voltou ao assunto. Foi numa manhã em que Sabrina e eu acordamos muito felizes, depois de uma noite bem especial. Carlos entrou no quarto, pulando, e disse, entre sorrisos: “Entreguei a carta hoje para a Gabriela”.