A luz do dia cai sobre a Lagoa Seca, no Belvedere, na região Centro Sul de Belo Horizonte. Estaciono o carro em frente ao edifício em que tenho encontro marcado com uma das artistas mais instigantes dos anos sessenta e setenta. Elegante e cordial, Teresinha Soares me recebe ao lado de seu filho, Luis Angelo. Serve um excelente vinho português enquanto comenta sobre livros. Adora Clarice Lispector. Também se interessa por História e por Ciência. Fala um pouco de sua vida. Na mesa de centro, o belíssimo catálogo a respeito de sua trajetória artística, editado pelo Museu de Arte de São Paulo, o MASP, organizador da primeira grande exposição panorâmica de sua obra, em cartaz até o dia 6 de agosto, sob curadoria de Rodrigo Moura e Camila Bechelany.

O nome da mostra traduz o conhecido caráter transgressor da obra da artista: “Quem tem medo de Teresinha Soares?” Nascida em Araxá, em 1927, a artista mineira celebra seus noventa anos em grande estilo. Recentemente, alguns de seus trabalhos integraram coletiva importante na Tate Modern, de Londres. Em breve, outros estarão expostos no Hammer Museum, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Seu livro “Acontecências: crônicas dos anos 60,70 e 80” (Editora Cobogó, 116 páginas) será lançado na Academia Mineira de Letras no próximo mês, em noite de autógrafos com a presença da autora. Para Belo Horizonte, será a oportunidade de reencontrar a personalidade pioneira, ousada e inovadora que marcou a sociedade da capital desde a sua estreia nas artes plásticas, em 65.

Até 76, a produção de Teresinha foi intensa, tendo participado de três bienais de São Paulo (67, 71 e 73), e de exposições individuais naquela cidade e no Rio de Janeiro. Nas palavras do crítico Frederico Morais, “foi uma carreira fulminante. Eletrizante, de altíssima temperatura.”  Depois, ela se recolheu, para ser revalorizada agora, em várias partes do mundo, como expressão significativa da arte pop, da vanguarda e do feminismo da segunda metade do século vinte.

Primeira mulher a eleger-se vereadora em sua cidade natal, Teresinha também foi miss e professora. Ao casar-se com o jornalista e advogado Britaldo Silveira Soares (1920 – 2015), mudou-se para a capital. Mãe de cinco filhos, entre eles a artista plástica Walesca e o cientista Britaldo Filho, professor da UFMG, notabilizou-se pela coragem com que abordou, em sua arte, temas até então considerados tabus, como o corpo, a sexualidade, a homossexualidade e a prostituição. Militante dos direitos da mulher, pregou a igualdade e combateu o machismo e a violência.

Saio de seu apartamento sabendo exatamente quem precisa temer a arte de Teresinha Soares.