Com satisfação, recebo o convite do confrade Adriano Espínola, da Academia Carioca de Letras, para fazer palestra sobre Adélia Prado, no ano em que a Casa de José de Anchieta promove uma série de conferências sobre as mulheres que se dedicam à Literatura. Alegro-me ao saber que, durante a sessão, a atriz Rosamaria Murtinho fará a leitura de alguns dos poemas da autora. Faço a seleção de sete, entre os quais, naturalmente, está o conhecidíssimo “Casamento”, do livro “Terra de Santa Cruz” (Editora Record, 108 páginas): “Há mulheres que dizem:/ Meu marido, se quiser pescar, pesque,/mas que limpe os peixes./Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,/ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.” Para compartilhar devidamente com os amigos do Rio de Janeiro minhas impressões sobre a autora de “O Pelicano” e de “Oráculos de Maio”, mergulho em seu universo poético, mas também em sua história de vida. Interessa-me saber um pouco mais sobre os caminhos que trilhou. Vejo que fez o curso Normal, lecionando por muitos anos. E que se formou em Filosofia, ao lado de seu marido até hoje, José de Freitas, com quem teve cinco filhos. Descubro, ainda, que pertenceu à Ordem Terceira de São Francisco e que seu irmão, Frei Antônio do Prado, foi o primeiro franciscano de Divinópolis, sua terra.

Importante, ainda, será destacar a ligação de Adélia Prado com o Teatro, para o qual escreveu alguns textos, entre eles autos de Natal. Sua afeição pela dramaturgia também a levou a dirigir “O auto da compadecida”, de Ariano Suassuna, em montagem do grupo “Cara e Coragem”, de sua cidade. A respeito de seus escritores mais queridos, talvez se possa dizer que entre eles estão Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade. Não resta dúvida, no entanto, de que sua leitura principal é a da Bíblia Sagrada, referência permanente de sua obra.

Sobre o começo de sua vida literária, encontro boa fonte no prefácio de Affonso Romano de Sant’Anna, escrito para a primeira edição de “O Coração Disparado” publicado em 78 pela Editora Nova Fronteira. Conta o crítico que, depois de ler aquele ‘maço de poemas, entre batidos a máquina e manuscritos’, recebido, em 73, pelos Correios, ele telefonou para Carlos Drummond de Andrade, entusiasmado, para anunciar: “Mestre, acaba de aparecer uma poetisa no interior de Minas”. O itabirano encantou-se pelo material recebido. Em crônica publicada na edição de 9 de outubro de 75, no saudoso Jornal do Brasil, escreveu: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus”. A estreia da autora foi no ano seguinte, com o lançamento de Bagagem, em prestigiada noite de autógrafos no Rio de Janeiro, na presença de Antônio Houaiss, Nélida Piñon e Juscelino Kubitschek. Bem recebido pela crítica e pelo público, o livro é considerado a ‘súmula’ da obra poética de Adélia Prado. Seus três primeiros poemas, “Com licença poética”, “Grande Desejo” e “Sensorial” exprimem as principais marcas que seguiram caracterizando a sua produção, ao longo dos quarenta anos seguintes. Entre elas, é possível relacionar o diálogo com o modernismo, a paisagem mineira, o eu lírico identificado com a mulher simples, do povo, ocupada com os afazeres do cotidiano, a religiosidade e a sexualidade, sem esquecer as reflexões sobre o próprio ofício do poeta. Em “Poesia Reunida” (Editora Record, 543 páginas), o leitor acompanha a bela trajetória literária dessa mulher que não teve medo de juntar sexo, Deus e morte, os três temas nos quais  diz pensar todos os dias.

Fascinada pela vida, católica devota e praticante, Adélia Prado não se deixa constranger por nenhuma leitura menos generosa da Criação e do Criador. Valoriza e considera sublime até mesmo o que é tido como abjeto, ou sujo. Em “Branca de Neve”, poema que abre “Miserere”, seu mais recente livro de Poesia, lançado em 2013 (Editora Record, 90 páginas), se lê: “O verdadeiro é sujo,/ destinadamente sujo.” E num trecho adiante: “Demoro a aprender/ que a linha reta é puro desconforto. /Sou curva, mista e quebrada,/ sou humana.” Tudo isso faz parte do grande mistério da existência e é incluído em sua pauta poética. Não é diferente a sua visão do corpo, para ela a expressão do amor divino pelo homem e a forma humana de Deus. No importante poema “Festa do corpo de Deus”, que também está em “Terra de Santa Cruz”, isso fica claro quando contempla o Cristo crucificado: “Eu te adoro, ó salvador meu/que apaixonadamente me revelas/a inocência da carne./Expondo-te como um fruto/ nesta árvore de execração/o que dizes é amor,/amor do corpo, amor.

Ainda sobre o tema, Adélia costuma dizer que o espiritual supõe o corpo: “Se um santo entra em êxtase, o êxtase se dá no corpo. O religioso sem o corpo é anêmico, sem vitamina, triste.” Tal visão perpassa tudo o que escreveu, o que confere ao seu trabalho uma feição libertária, a favor da emancipação humana, sobretudo da mulher, tantas vezes oprimida, ou, como diz a poeta, “essa espécie ainda envergonhada”. Para a autora, no entanto, “mulher é desdobrável”, o que ela comprova com o próprio exemplo, como em “Grande Desejo”: “(…) sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia./ Faço comida e como.” E em outro trecho: “Quando dói, grito ai,/quando é bom, fico bruta,/as sensibilidades sem governo”.

Já a Poesia, para Adélia, é a revelação do real. É um acontecimento cósmico, sem explicação lógica. É um fenômeno que provoca uma sensação de susto e de estranhamento. É feita para a sensibilidade, traduz a perplexidade e o assombro de existir. “Existir é muito perturbador, é muito esquisito. O que dispara a minha criação poética é esse espanto diante da vida”. O poder da Poesia, para a autora, está em sua capacidade de religar o homem a um centro de significação e sentido, o que faz com que se aproxime da religião. A beleza, por sua vez, merece mais reflexões: “Eu não tenho poder diante da beleza. Ninguém a cria. Ela vem da terceira margem da alma. Ela vem de um lugar maior que o poeta, de um lugar que inclui a tristeza e a alegria”.

Pressinto que a sessão da Academia Carioca dedicada à mineira Adélia será delicada e profunda, como a sua Poesia.