Na minha infância, a presença da televisão na vida das famílias era bem maior que a de hoje. O aparelho quase sempre ficava na sala de estar da casa, em posição de destaque, como num altar. Para ser venerado. Dominava o ambiente, sobretudo no turno da noite, o chamado horário nobre, quando, supostamente, pais e filhos já estavam de novo juntos, depois de voltarem do trabalho ou da escola. A pauta das conversas do dia seguinte era dada pelo que se via na telinha. Isso não é mais assim. A internet e as redes sociais ampliaram tanto as possibilidades de produção e circulação dos mais variados conteúdos que a tevê perdeu o protagonismo exercido até alguns anos. É, atualmente, apenas mais uma mídia, muitas vezes acessada pelo computador ou pelo celular, o que não é ruim. Pelo contrário. A diversidade enriquece o repertório cultural, abre horizontes, produz mentalidades mais cosmopolitas, menos ignorantes.

Outra prática que perdeu poder foi a do consumo massivo de refrigerantes. Ou de frituras. Quando menino, não fui a uma festinha sequer que não servisse coca cola ou guaraná. Ou as famosas coxinhas. O quadro hoje é outro. As bebidas naturais voltaram com força total. Um dos sucos favoritos de minha mulher é o de inhame e manjericão. Os alimentos mais saudáveis também conquistaram o seu espaço. Continuo fã dos salgadinhos que faziam a alegria do meu tempo de criança, mas hoje sei que eles podem conviver num ambiente  plural, receptivo a sabores diferentes. Nesse fim de semana, tive a alegria de visitar, pela segunda vez, a excelente “Feira fresca”, evento itinerante que promove o encontro entre consumidores abertos ao novo e produtores corajosos, que apostam num mundo menos intoxicado. Sabrina deliciou-se com brownies feitos de feijão e com a poderosa pasta de castanhas com alfarroba. Provei do ótimo café orgânico vindo do Sul de Minas. Carlos comeu a empada de alho poró e damasco. Saímos da bela ‘Casa Ateliê’, na Rua Gonçalves Dias, com apetitosos potinhos de geleia de mexerica e de limão capeta e com a compota de hibisco. Se a natureza e a cultura humana são tão ricas, por que restringir o universo do nosso paladar?

Nos anos setenta e oitenta, em Belo Horizonte, era uma luta encontrar comida vegetariana, alimentos orgânicos, ou, simplesmente, produtos mais naturais. O império do enlatado era poderoso e ditava a lei. Lembro-me de uma honrosa exceção, o ‘Superbom’, que era visto quase como uma igreja protestante, em país de maioria católica (vejo no site dessa interessantíssima empresa que ela foi fundada em 1925!). O panorama agora é radicalmente distinto. Ao longo das últimas décadas, uma revolução silenciosa tomou corpo e vem alterando, de modo consistente, o modo de comer. Sobretudo na infância. O mercado reconheceu a demanda da sociedade e até as gôndolas mais conservadoras se renderam a essa realidade, que é recente, mas parece que veio para ficar.          

E os automóveis? Síntese da civilização industrial erguida pelo Ocidente, eles são a cara do século vinte. Mas chegam ao vinte e um duramente questionados. Gosto muito do meu carro e admiro profundamente os brilhantes profissionais que atuam no setor, mas sei que não é possível mais submeter as cidades exclusivamente à sua lógica. Sonho com o dia em que Belo Horizonte ganhará um metrô de verdade. Fico feliz em saber que alguns amigos já conseguem chegar ao trabalho de bicicleta ou a pé. Como no tempo de meu pai.